Na Quaresma, somos chamados ao jejum que vai além do alimento: jejum de indiferença, jejum de violência contra quem a gente não gosta, jejum de sermos duros de coração. É tempo de romper as algemas, não apenas as de ferro, mas as do preconceito, do ódio e da frase repetida sem reflexão: “bandido bom é bandido morto”. Quantas vezes o cristão esquece que Jesus também foi morto e, ainda assim, não foi vencido pela morte? Ele foi condenado pelo sistema, executado pelo Estado, e se identificou com os últimos. Na caminhada da Pastoral Carcerária, a Quaresma ganha rosto concreto: o rosto das pessoas privadas de liberdade, das famílias destroçadas, das mães que aguardam notícias, das mulheres e homens que sonham recomeçar.
A Campanha da Fraternidade 2026 nos recorda que as egressas e os egressos do sistema prisional também precisam de TETO, TRABALHO e DIGNIDADE. Não há conversão verdadeira sem compromisso com reintegração, sem contar com a justiça restaurativa como caminho de cura e responsabilidade partilhada. Ele veio morar no meio de nós nos mais variados jeitos e histórias: no povo de rua, nas mulheres em situação de prostituição, nas pessoas privadas de liberdade, nas crianças famintas, nas famílias destroçadas, nas pessoas com orientação sexual diferente, nos dependentes químicos, nos migrantes, nos esquecidos. Cristo continua crucificado em cada corpo ferido pela exclusão. Buscar um mundo sem cárceres é acreditar que a justiça pode ser um abraço, que responsabilizar não é descartar, que restaurar é mais forte do que punir. A Quaresma nos convida a isso: menos pedras nas mãos, mais pontes estendidas; menos condenação apressada, mais escuta; menos grades, mais esperança. Que o nosso jejum seja de ódio. Que a nossa penitência seja amar.
Jesus praticou justiça restaurativa muito antes de darmos esse nome a ela. Ele não descartava pessoas; Ele as escutava, devolvia dignidade e as reintegrava à comunidade. Com a samaritana no poço (Jo 4), rompeu barreiras religiosas e morais, escutou sua história e a transformou em anunciadora da Boa Nova. Com Zaqueu (Lc 19,1-10), não negou o erro do explorador, mas entrou em sua casa; e do encontro nasceu o reconhecimento, a reparação: “Senhor, darei metade dos meus bens aos pobres”. Com o cego de Jericó (Mc 10,46-52), parou no meio da multidão e perguntou: “Que queres que eu te faça?”. Antes do milagre, houve escuta.
Também diante da mulher acusada (Jo 8,1-11), Ele não negou o mal, mas rompeu a lógica da condenação sumária: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”. E ao final disse: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais.” Não é impunidade. É a responsabilização que nasce do encontro, é a conversão que nasce do reconhecimento da própria verdade.
A justiça restaurativa não significa passar a mão na cabeça ou fingir que nada aconteceu. Pelo contrário: é responsabilizar-se, reconhecer o dano, reparar o que for possível e reconectar laços rompidos. É criar espaço onde vítima e ofensor têm o direito de serem ouvidos em suas dores e necessidades. É sair da lógica do descarte para entrar na lógica da reconstrução.
Nas práticas circulares, círculos de construção de paz, aprendemos isso concretamente: um espaço de escuta ativa, onde cada pessoa fala e é ouvida sem interrupção; um espaço de confiança, de sigilo e fidelidade à palavra partilhada; um espaço onde a verdade não é arma, mas ponte. Ali, pouco a pouco, a dignidade é restaurada, os vínculos são reconstruídos, e a comunidade aprende a cuidar de suas próprias feridas.
Buscar um mundo sem cárceres é acreditar que a justiça pode ser um abraço, que responsabilizar não é descartar, que restaurar é mais forte do que punir. A Quaresma nos convida a esse jejum profundo: jejum de ódio, jejum de vingança, jejum de corações endurecidos.
“Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Que essa vida abundante alcance também quem errou, quem sofreu, quem foi ferido e quem feriu. Que a nossa penitência seja amar. E que a Páscoa floresça como promessa de um mundo onde a justiça é paz que se abraça e ninguém é reduzido ao seu pior erro.
Vera Dalzotto
