Recomeçar com Dignidade: O Impacto do Primeiro Círculo Restaurativo para a População em Situação de Rua em Belém

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No dia 13 de maio de 2026, o Espaço Acolher, local recém- inaugurado pela Prefeitura de Belém que acolhe diariamente 50 pessoas em situação de rua para tomar banho, jantar e dormir, também foi local para um encontro emocionante. A Pastoral Carcerária, em uma articulação especial com a Pastoral do Povo de Rua, deu mais um passo na busca pela garantia de direitos e resgate da dignidade humana, realizando o primeiro Círculo Restaurativo voltado especialmente para a população de rua, guiado pelo tema “Recomeçar com Dignidade”. 

O encontro marcou uma dupla estreia: foi o primeiro círculo da Pastoral do Povo em Situação de Rua e também a primeira experiência de Dovale como facilitador. O intuito central da ação é a conscientização dos participantes sobre os seus direitos e a sua sensibilização para que, juntos a outras pastorais sociais, seja criado o Fórum do Povo em Situação de Rua. 

Utilizando a metodologia dos Círculos Restaurativos, o facilitador iniciou a atividade criando um ambiente seguro de fala e escuta. Um dos pontos altos e que mais agradou aos participantes foi a fala de acolhida, que ecoou profundamente no espaço:

“Aqui é um espaço seguro. Aqui ninguém é julgado. Aqui cada história tem valor. Cada um de vocês tem dignidade, tem nome, tem uma história importante.”

Após as etapas de abertura, Dovale compartilhou a história de João, um homem em situação de rua que, habitando as margens da invisibilidade urbana, tem sua vida tocada por uma senhora. Ela o olha profundamente nos olhos e diz uma frase simples, mas transformadora: “Você tem valor. Deus não te esqueceu”.

Essa história serviu como chave para abrir os corações dos presentes, que foram convidados a responder três perguntas: 

Em algum momento da sua vida você já se sentiu valorizado? Como foi isso?

  • A maior parte dos presentes relatou que o sentimento de valorização estava diretamente ligado à época em que conviviam com suas famílias.

Que parte da sua história você gostaria de resgatar?

  • O maior desejo manifestado foi o de recuperar o período em que possuíam um trabalho digno.

Se você pudesse dizer algo para si mesmo, cheio de amor, o que seria?

  • Em uma quase unanimidade emocionante, o grupo respondeu: “Eu posso recomeçar.”

O círculo foi extremamente bem aceito e absorvido pelos participantes, fazendo com que se sentissem verdadeiramente valorizados. A receptividade e a participação do grupo foram excepcionais, cumprindo o papel vital de despertar nos integrantes o protagonismo sobre suas próprias vidas. 

Um dos rapazes presentes, que estava embrulhado em uma toalha de banho por não possuir uma camisa, desabafou que, durante todo o tempo em que se encontra na rua, aquela foi a primeira vez que alguém o abraçou, acolheu e ouviu sem preconceito.

Todos consideraram o encontro excelente e saíram muito confiantes no sentimento de um novo recomeço que a equipe conseguiu transmitir.

Acolher para Não Encarcerar

A atuação da Pastoral Carcerária nesse projeto traz uma reflexão preventiva urgente: acolher na rua evita a tristeza no cárcere. A grande importância de iniciativas como essa está na possibilidade de oferecer oportunidades reais e dignidade antes que essas pessoas vulneráveis comentam algum delito, evitando, assim, o sofrimento profundo do sistema prisional. 

O círculo gerou um compromisso coletivo: os integrantes já planejam frequentar as próximas sessões e prometeram trazer mais pessoas para, juntos, trilharem um caminho de mudança.

Para o facilitador Dovale, a experiência foi profunda e engajadora. Ele define como um combustível para as próximas etapas: “Me senti feliz em estar cercado por pessoas excluídas da sociedade. Que viam em mim a oportunidade de se organizarem e sair da invisibilidade através da união para encontrarmos a força necessária para a luta. Essa alegria me traz um misto de esperança e responsabilidade.” 

O objetivo final do projeto é ocupar a Câmara Municipal em uma Audiência Pública, levando os próprios irmãos de rua como porta-vozes de sua realidade, buscando a consolidação do Fórum da Pessoa em Situação de Rua e transformando a dor compartilhada em direito garantido. 

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