Pontos importantes na Exortação Apostólica DILEXI TE

 Em Artigos

Aviso Importante

Este conteúdo apresenta apenas pontos importantes na Exortação Apostólica DILEXI TE. Informamos que este material não é o texto completo e não substitui a leitura integral da obra.

Para compreender profundamente a caminhada sinodal da Igreja e a intuição de Leão 14 , bem como a continuidade na diversidade deste caminho profético e libertador, é fundamental acessar o documento original.

Acesse a leitura completa em: ARTIGO


I. Introdução: O Caminho da Igreja

Muitos podem se interrogar, após os primeiros passos de Leão 14 qual será o caminho da Igreja no post era Francisco com os passos da gigante dados pela instituição central onde, se diga, de passagem houve uma inversão dos papeis tornando as periferias sujeitos da ação evangelizadora da Igreja e não mais meros executores de tratados teológicos frutos das academias na sua maioria distantes da realidade do dia a dia da história humana. O que ficou certo é que Leão 14 continuará, naturalmente com seu jeito e intuição a caminhada sinodal da Igreja incrementando e constantemente atualizando o Concilio Vaticano segundo, magna carta para a comunidade cristã que se deve constantemente confrontar com os desafios cada vez maiores de uma sociedade e universo em rápida evolução e com a era do liquido, gasoso e artificial.

Continuidade na Diversidade

Ao assumir o projeto dos últimos meses de vida de Francisco, uma continuidade e complemento da Encíclica Dilexit nos, traduzindo o amor de Deus e do Sagrado Coração de Jesus em amor aos pobres imaginando o Cristo se dirigindo a cada um deles dizendo: Tens pouca força, pouco poder, mas «Eu te amei» (Ap 3, 9), Leão 14, mesmo com alguns acréscimos, sinaliza que o caminho profético e libertador destes últimos anos irá continuar dando aos pobres e as periferias humanas e existenciais um lugar de destaque no seio da Igreja e da comunidade cristã. É nesta perspectiva que o afeto pelo Senhor se une ao afeto pelos pobres. São Paulo sexto afirmou que o Concílio segue esta direção a partir da antiga história do bom samaritano e por isso a convicção de que: a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade, quando somos capazes de nos libertar da autorreferencialidade e conseguimos ouvir o seu clamor.

II. O Clamor e os Rostos dos Pobres

Ao ouvir o clamor do pobre, somos chamados a identificar-nos com o coração de Deus, que está atento às necessidades dos seus filhos e filhas, especialmente dos mais necessitados. A condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja. No rosto ferido dos pobres encontramos impresso o sofrimento dos inocentes e, portanto, o próprio sofrimento de Cristo.

  • As múltiplas faces: Estamos diante dum fenômeno das múltiplas faces que vão daqueles a quem faltam os meios de subsistência material aos marginalizados socialmente, sem poder dar voz à sua dignidade e capacidade, a pobreza moral, espiritual, cultural, aos que se encontram em condições de fraqueza ou fragilidade seja pessoal como social, aqueles que não tem direitos, lugar, liberdade.

  • Injustiça Estrutural: O compromisso em favor dos pobres pela erradicação das causas sociais e estruturais da pobreza, embora tenham adquirido importância nas últimas décadas, ainda continuam insuficientes devido a linhas políticas e padrões de vida marcados por numerosas desigualdades.

  • Vulnerabilidade feminina: Duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão, maus tratos e violências porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos.

Preconceitos Ideológicos e a Falsa Meritocracia

A verdade é que os pobres não existem por acaso ou por um cego e amargo destino. No entanto, ainda há quem ouse afirmá-lo, demonstrando cegueira e crueldade. Não podemos dizer que a maioria dos pobres estão nessa situação porque não obtiveram “méritos”, de acordo com a falsa visão da meritocracia, segundo a qual parece que só têm mérito aqueles que tiveram sucesso na vida. Temos também cristãos que se deixam contagiar por ideologias mundanas e orientações político-econômicas que levam a injustas generalizações e conclusões enganadoras ridicularizando e desprezando o exercício da caridade.

III. Fundamentação Teológica e Bíblica

Podemos falar também teologicamente sobre a opção preferencial de Deus pelos pobres, expressão surgida no continente latino-americano e concretamente na Assembleia de Puebla e sucessivamente integrada no Magistério da Igreja. Jesus é a revelação deste privilegium pauperum. Ele manifesta-se, portanto, como Aquele que, no hoje da história, vem realizar a proximidade amorosa de Deus, que em primeiro lugar é obra de libertação para quem está prisioneiro do mal, para os fracos e os pobres.

É inegável que o primado de Deus no ensinamento de Jesus é acompanhado por outro princípio fundamental, segundo o qual não se pode amar a Deus sem estender o próprio amor aos pobres. O amor ao próximo é a prova tangível da autenticidade do amor a Deus. Por esta razão, recomendam-se as obras de misericórdia, qual sinal da autenticidade do culto que, ao louvar a Deus, tem por missão abrir-nos à transformação que o Espírito pode realizar em nós.

IV. A Tradição da Igreja: Dos Padres ao Monasticismo

Desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja reconheceram no pobre um acesso privilegiado a Deus, um modo especial para O encontrar. A caridade para com os necessitados não era compreendida como simples virtude moral, mas como expressão concreta da fé no Verbo encarnado.

  • São Lourenço: Sendo obrigado a entregar as autoridades romanas os tesouros da Igreja, trouxe consigo, no dia seguinte, os pobres, dizendo: “Estes são os tesouros da Igreja”.

  • São João Crisóstomo: Afirmando com clareza meridiana que, se os fiéis não encontram Cristo nos pobres à sua porta, tampouco serão capazes de prestar-Lhe culto no altar. Entendia a Eucaristia, portanto, também como uma expressão sacramental da caridade e da justiça que a precediam.

  • Santo Agostinho: Ensinou por sua vez o amor preferencial pelos pobres. Compreendeu que a verdadeira comunhão eclesial se expressa também na comunhão dos bens.

O Cuidado na Vida Monástica

A vida monástica revelava-se estilo de santidade e forma concreta de transformação da sociedade. São Basílio Magno, na sua Regra, não via contradição entre a vida de oração e recolhimento dos monges e a ação em favor dos pobres. Para ele, a hospitalidade e o cuidado com os necessitados eram parte integrante da espiritualidade monástica. São Bento de Núrsia elaborou uma Regra onde o acolhimento dos pobres e dos peregrinos ocupa lugar de honra: «Mostre-se principalmente um cuidado solícito na recepção dos pobres e peregrinos, porque sobretudo na pessoa desses, Cristo é recebido».

V. Libertação e Testemunho Profético

A missão libertadora prolongou-se ao longo dos séculos por meio de ações concretas, especialmente quando o drama da escravidão e do cativeiro marcou sociedades inteiras. O gesto de resgatar da escravidão e do cárcere é visto como prolongamento do sacrifício redentor de Cristo. A caridade cristã, quando encarnada, torna-se libertadora.

Ordens Mendicantes e Pobreza Evangélica

No século treze, diante do crescimento das cidades e da concentração de riquezas, o Espírito Santo suscitou as Ordens mendicantes. Ao contrário do modelo monástico estável, os mendicantes adotaram uma vida itinerante, inteiramente confiada à Providência. Não apenas serviam os pobres: tornavam-se pobres com eles.

Francisco não fundou um serviço social, mas uma fraternidade evangélica. A sua pobreza era relacional: levava-o a fazer-se próximo, igual, na verdade, menor. Santa Clara de Assis recusou privilégios pontifícios que poderiam proporcionar segurança material ao seu mosteiro e obteve o chamado Privilegium Paupertatis, garantindo o direito de viver sem a posse de qualquer bem material.

VI. Instrução, Migração e Santidade nas Periferias

A educação sempre foi uma das expressões mais altas da caridade cristã. Ensinar os pobres era, para a Igreja, um ato de justiça e fé. No século 19, Marcelino Champagnat funda o Instituto dos Irmãos Maristas, dedicando-se com todo o afinco à missão de educar e evangelizar crianças e jovens, especialmente os mais necessitados. João Bosco iniciou a obra Salesiana fundamentada na razão, religião e amabilidade.

Acompanhar os Migrantes

A experiência da migração acompanha a história do povo de Deus. No século 19, dois grandes santos se destacaram no cuidado pastoral dos migrantes: São João Batista Scalabrini e Santa Francisca Xavier Cabrini. O Papa Francisco recordava que a resposta ao desafio colocado pelas migrações contemporâneas pode-se resumir em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar.

Santidade nas Periferias Existenciais

A santidade cristã floresce, com frequência, nos lugares mais esquecidos e feridos da humanidade. Santa Teresa de Calcutá recolhia os rejeitados, lavava as suas feridas, acompanhava-os até ao momento da morte com uma ternura que era prece. No Brasil, Santa Dulce dos Pobres encarnou o mesmo espírito evangélico com feições brasileiras. Começou acolhendo doentes num galinheiro, e dali fundou uma das maiores obras sociais do país. Servir aos pobres não é um gesto de cima para baixo, mas um encontro de igual para igual, onde Cristo é revelado e adorado.

VII. Magistério Social e Estruturas de Pecado

O Magistério dos últimos cento e cinquenta anos oferece um verdadeiro tesouro de ensinamentos sobre os pobres. Leão 13 abordou a questão do trabalho propondo uma ordem social justa. João 23 afirmou que a Igreja apresenta-se como Igreja de todos e particularmente Igreja dos pobres. Com São João Paulo segundo, consolida-se a relação preferencial da Igreja com os pobres como forma especial de primado na prática da caridade cristã.

O Combate às Estruturas de Injustiça

É necessário continuar a denunciar a “ditadura de uma economia que mata” e reconhecer que enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. O pecado social assume a forma de uma “estrutura de pecado” na sociedade, fazendo frequentemente parte de uma mentalidade dominante que considera normal ou racional o que não passa de egoísmo e indiferença. A falta de equidade «é a raiz dos males sociais». Se não pararmos a pensar as coisas a sério, continuaremos a legitimar o modelo distributivo atual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar.

VIII. Os Pobres como Sujeitos e o Desafio Permanente

Um dom fundamental é representado pelo discernimento da Conferência de Aparecida, na qual os Bispos explicitaram que a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica. É necessário considerar as comunidades marginalizadas como sujeitos capazes de criar cultura própria, mais do que como objetos de beneficência. Dia a dia os pobres se fazem sujeitos da evangelização e da promoção humana integral.

O cristão não pode considerar os pobres apenas como um problema social: eles são uma “questão familiar”. A cultura dominante do início deste milénio impele-nos a abandonar os pobres ao seu próprio destino. Precisamos de reconhecer a tentação que nos cerca de se desinteressar dos outros, especialmente dos mais frágeis. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar à margem, ignorar as situações até elas nos caírem diretamente em cima.

A Questão da Esmola e do Trabalho

Ajudar a pessoa a ter um bom trabalho é fundamental para ter uma vida mais digna. Ao trabalhar tornamo-nos mais pessoas, a nossa humanidade floresce. Mas se não existe ainda esta possibilidade não devemos correr o risco de deixar uma pessoa abandonada à própria sorte. Assim, a esmola continua a ser um momento necessário de contato, encontro e identificação com a condição do outro. Ela convida a parar e a olhar nos olhos a pessoa pobre, tocando-a e partilhando com ela algo do que se tem.

IX. Conclusão: O Amor que Supera Barreiras

O amor cristão supera todas as barreiras, aproxima os que estão distantes, une os estranhos, torna familiares os inimigos, atravessa abismos humanamente insuperáveis. Por sua natureza, o amor cristão é profético, realiza milagres, não tem limites: é para o impossível. O amor é sobretudo uma forma de conceber a vida, um modo de a viver. Quer através do vosso trabalho, quer através do vosso empenho em mudar as estruturas sociais injustas, quer através daquele gesto de ajuda simples, muito pessoal e próximo, será possível que aquele pobre sinta serem para ele as palavras de Jesus: «Eu te amei» (Ap 3, 9).

Volatr ao topo