Um olhar de fé sobre a realidade das mulheres privadas de liberdade

Entre os muros do cárcere vivem milhares de mulheres cuja história permanece, muitas vezes, invisível para a sociedade. São mães, filhas, trabalhadoras e chefes de família que carregam sobre si não apenas a pena imposta pelo sistema penal, mas também o peso do abandono, do preconceito e da exclusão social.
Inspirada pela espiritualidade de Nossa Senhora Aparecida, a Pastoral Carcerária busca lançar um olhar de fé sobre essa realidade e caminhar ao lado das muitas “Marias” que hoje vivem privadas de liberdade.
A inspiração de Aparecida
A celebração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida no rio Paraíba, encontrada por pescadores, despertou na Pastoral Carcerária uma profunda reflexão espiritual e pastoral. Foi nesse contexto que nasceu o conceito de “Maria e as Marias no cárcere”.
A partir dessa inspiração, cresceu a atenção pastoral voltada às mulheres privadas de liberdade. Isso ocorreu também diante do aumento significativo da população feminina no sistema prisional brasileiro — expressão de uma sociedade que, muitas vezes, se esconde atrás do legalismo e de um puritanismo religioso, enquanto sustenta práticas punitivistas e o encarceramento em massa.
Uma reflexão profética
A figura de Nossa Senhora Aparecida, tão presente no imaginário popular, inspira uma reflexão teológica marcada por um tom profético.
Mais uma vez, os poderosos da terra colocam sobre ela um manto e uma coroa, tentando distanciá-la do povo simples. No entanto, a história de Aparecida recorda que ela nasce das águas e da lama do rio, profundamente ligada à vida dos pobres e excluídos.
Assim também acontece com tantas mulheres encarceradas: suas vidas carregam as marcas da exclusão social, da pobreza e da condenação.

Dar visibilidade
Essa reflexão pastoral tornou-se concreta na elaboração de uma cartilha de formação para agentes da Pastoral Carcerária, dedicada à realidade da mulher privada de liberdade.
O objetivo foi dar visibilidade a uma realidade que cresce de forma preocupante no sistema penitenciário brasileiro, convidando agentes pastorais e comunidades a compreender melhor os desafios específicos vividos pelas mulheres no cárcere.
Dupla condenação
Se para qualquer pessoa a prisão já representa uma verdadeira tortura em tempos modernos, para as mulheres essa realidade se torna ainda mais dura.
O sistema penal, profundamente marcado por estruturas machistas e autoritárias, acaba impondo às mulheres uma dupla condenação:
- a da justiça penal;
- e a da exclusão social.
Muitas vezes esquecidas pela sociedade e até por suas próprias famílias, essas mulheres tornam-se invisíveis.
Por isso, a Pastoral Carcerária Nacional tem buscado dedicar uma atenção especial às realidades que, dentro do sistema prisional, vivem sofrimentos ainda maiores: mulheres, população LGBTQIAPN+ e povos indígenas.
Cárcere: periferia existencial
A crise e as contradições da sociedade aparecem de forma ainda mais intensa dentro das prisões.
O sistema carcerário torna-se, cada vez mais, um espaço de exclusão e de empilhamento de corpos, marcado por violações constantes de direitos humanos. Em muitos casos, discursos de intolerância e fundamentalismos religiosos acabam legitimando práticas de condenação e exclusão.
Assim, o cárcere transforma-se frequentemente em um lugar de sofrimento, dor e morte.
Muros ainda mais altos
A pandemia da COVID-19 agravou ainda mais essa situação.
Durante esse período, os presídios tornaram-se ainda mais fechados, dificultando o acesso pastoral e aprofundando o isolamento das pessoas privadas de liberdade. Mesmo após o período mais crítico da pandemia, muitas restrições permanecem.
Esse fechamento progressivo dos cárceres reflete uma violência estrutural alimentada pelo medo, pelo hiperindividualismo e por um crescente distanciamento social.
O grito profético
Diante dessa realidade, a Pastoral Carcerária continua a levantar o seu grito profético.
A missão é acompanhar as pessoas privadas de liberdade, suas famílias e os agentes pastorais por meio de visitas, encontros, formações e momentos de espiritualidade.
Nesse caminho, ganha destaque a promoção da justiça restaurativa, da comunicação não violenta e da escuta ativa — instrumentos que ajudam a restaurar relações feridas e a abrir caminhos de reconciliação.

Escutar as mulheres
Dentro desse horizonte realizou-se, em São Paulo, no último mês de março, o Encontro Nacional sobre as Questões da Mulher Presa.
O encontro reuniu agentes pastorais e pessoas comprometidas com a dignidade humana para refletir sobre a relação entre fé, justiça e a realidade das mulheres privadas de liberdade.
Os trabalhos se organizaram em quatro grandes eixos, começando pela escuta das dores e experiências das mulheres presas em sua vida cotidiana.
Quem são as mulheres presas?
Os dados revelam uma realidade profundamente marcada pela desigualdade social.
A maioria das mulheres privadas de liberdade no Brasil é composta por:
- mulheres negras,
- jovens,
- com baixa escolaridade,
- mães e chefes de família,
- provenientes de periferias marcadas pela exclusão e pela violência.
Direitos violados
Evangelizar, nesse contexto, significa também defender a dignidade humana.
O sistema penitenciário brasileiro apresenta graves violações de direitos:
- superlotação;
- ambientes insalubres;
- dificuldade de acesso à água potável e alimentação adequada;
- limitações no acesso à saúde, à assistência jurídica e à assistência religiosa;
- obstáculos às visitas familiares e à vivência da fé.
Além disso, muitos grupos continuam invisibilizados dentro das prisões, como a população LGBTQIAPN+, mulheres indígenas e mulheres estrangeiras.
Destaque pastoral
A missão da Pastoral Carcerária não se limita a denunciar injustiças.
Ela procura também semear esperança, restaurar relações e construir caminhos de fraternidade.
Por meio da presença solidária e da escuta, torna-se possível reconhecer a dignidade de cada pessoa privada de liberdade e abrir espaços para processos de reconciliação e transformação.
Caminhar com as “Marias”
Diante dessa realidade, a Pastoral Carcerária reconhece que não pode permanecer apenas no diagnóstico.
Assim como tantas “Marias” do Evangelho, somos chamados a levantar-nos e a caminhar, assumindo os desafios do nosso tempo.
Isso significa:
- levantar a voz em defesa da dignidade humana;
- participar dos espaços de políticas públicas;
- promover a cultura da fraternidade e da sororidade;
- renovar a opção preferencial pelos pobres entre os mais pobres.
Caminhar ao lado das mulheres privadas de liberdade é permanecer fiel ao Jesus de Nazaré, que sempre se colocou ao lado dos excluídos e condenados de seu tempo.
Entre os muros das prisões continuam vivendo muitas “Marias”.
Escutar suas histórias, reconhecer sua dignidade e caminhar com elas é um chamado evangélico que interpela toda a Igreja.
Ali, onde o mundo vê apenas condenação, o Evangelho continua semeando esperança.
