As Marias no Cárcere: Encontro Nacional Reflete sobre Fé, Justiça e a Realidade da Mulher Presa

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Entre os dias 20 e 22 de março de 2026, a Pastoral Carcerária promoveu um Encontro Nacional para Questões da Mulher Presa, realizado no espaço de Eventos e Hospedagem Sagrada Família, no Ipiranga. O evento reuniu aproximadamente 40 lideranças da Pastoral Carcerária vindas de diversos estados brasileiros, contemplando as cinco regiões do país, em um esforço conjunto de reflexão, partilha e fortalecimento do compromisso com a justiça social.

Espiritualidade Encarnada: A Dor das Marias

O encontro iniciou-se sob o signo da espiritualidade quaresmal, com a realização de uma Via-Sacra que conectou o calvário de Jesus às dores cotidianas das mulheres encarceradas. Cada estação foi um convite para olhar o rosto daquelas que o sistema muitas vezes ignora. Maria de Fátima Castelan (Fatinha), integrante do GT para a Questão da Mulher Presa, e a Irmã Petra conduziram momentos de oração centrados no “sopro da vida” e na trajetória de mulheres bíblicas como Maria Madalena e Rizpa, figuras que simbolizam a luta incessante por justiça e o anúncio da esperança.

O Perfil do Cárcere Feminino no Brasil

Um dos eixos centrais do debate foi a análise crítica do perfil das mulheres privadas de liberdade no país. Durante a apresentação da nova Cartilha da Mulher Presa, evidenciou-se que o sistema prisional feminino é atravessado por profundos marcadores de desigualdade social.

  • Perfil Majoritário: Mulheres negras e jovens.
  • Contexto Educacional: Baixa escolaridade.
  • Maternidade: A maioria das presas são mães e chefes de família.
  • Origem: Mulheres oriundas de contextos periféricos.

A Irmã Petra realizou uma explanação detalhada do Guia Prático de Direitos para Mulheres em Situação de Prisão, destacando que o conhecimento da legislação é uma ferramenta de sobrevivência e resistência.

Enfrentando a Violação da Dignidade

A plenária de escuta revelou cenários alarmantes enfrentados pelos agentes da Pastoral em suas visitas. Entre as denúncias mais recorrentes, destacaram-se:

  • Superlotação e Insalubridade: Desafios críticos relacionados ao acesso à água potável e alimentação digna.
  • Restrições Religiosas: Barreiras que impedem o livre exercício da fé dentro das unidades.
  • Invisibilidade de Grupos Específicos: A urgência de um olhar qualificado para a população LGBTQIAPN+, mulheres indígenas e estrangeiras, cujas garantias legais e identitárias são frequentemente desrespeitadas.

A discussão também abarcou instrumentos jurídicos como a Política Nacional de Atenção às Mulheres Privadas de Liberdade (PNAMPE) e o Marco Legal da Primeira Infância, essenciais para assegurar direitos básicos que hoje são sistematicamente negados.

Compromissos e Horizontes

O encontro não se limitou ao diagnóstico, mas gerou gestos concretos. Os participantes aprovaram a redação de uma carta a ser enviada aos bispos do Brasil e reforçaram a necessidade de ocupar espaços de controle social, como os Conselhos Estaduais de Direitos da Mulher e da Saúde.

O encerramento foi marcado por uma missa presidida por Dom Arnaldo, bispo referencial, que partilhou sua caminhada pastoral junto às populações marginalizadas, enfatizando a missão de uma Igreja acolhedora e inclusiva. Com a entrega de kits de estudo para os agentes, o encontro selou a urgência de uma Pastoral que não apenas visite o cárcere, mas que lute ativamente para que cada “Maria” recupere sua voz e sua dignidade. 

Para acessar o relatório completo, acesse aqui: Relatório EM-SP

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