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Irmã Petra:  “Atendimento de saúde às mulheres encarceradas é muito precário”

 em Mulher Encarcerada

Por José Coutinho Júnior

A PCr irá realizar durante os dias 24 a 26 de março um encontro de mulheres em Campo Grande (MS), onde serão trabalhados com as agentes presentes diversos temas sobre a mulher encarcerada.

Um dos temas que irão ser debatidos é a saúde da mulher encarcerada. Irmã Petra Pfaller, da coordenação nacional da PCr, ressalta a importância de debater esta questão. “As prisões foram construídas por homens, para homens. A mulher tem questões de saúde mais complexas que o homem, e elas na maioria das vezes não são atendidas”.

Confira abaixo a entrevista de Irmã Petra ao site da PCr sobre saúde e mulher encarcerada:

Como é a questão da saúde nos presídios, tanto para homens quanto para as mulheres?

O atendimento é muito precário. Se a saúde é precária do lado de fora da prisão, imagina dentro. Na maioria dos presídios não tem médicos, e quando tem, são clínicos gerais. Também faltam medicamentos e equipamentos básicos como luvas e seringas.

O deslocamento dos presos e das presas que precisam de tratamento médico para hospitais também é complicado: muitas vezes o presídio alega que não tem escolta para isso.

E como essa estrutura afeta as mulheres especificamente?

As prisões foram coIrma_Petra_entrevistanstruídas por homens, para homens. A mulher tem questões de saúde mais complexas do que o homem, o corpo é diferente. Elas precisam de atendimento ginecológico, as grávidas precisam de acompanhamento e de pré-natal por exemplo. Lembrando que a maioria dos presídios não tem médicos.

A questão da saúde mental também é grave. 80% das mulheres presas tomam remédios para dormir, para ansiedade, elas precisam de um acompanhamento psicológico que simplesmente não existe.

Outras doenças surgem por causa das condições na prisão. A falta de alimentação digna, a restrição do movimento, pois as mulheres ficam trancadas nas celas sem poder andar a maior parte do dia.

O HIV existe e, como a camisinha não é distribuída, se dissemina. Dor de dente não tem tratamento, se arranca o dente que dói. Há muitas doenças de pele por conta da insalubridade, já vi baratas andando nas celas. O suicídio entra as mulheres é bem maior que o dos homens, a psique da mulher é mais prejudicada.

E as mulheres grávidas?

As mulheres grávidas nunca sabem se algo vai dar errado. Quando passam mal à noite, tem que bater na lata, e os agentes muitas vezes não prestam socorro. Muitas mulheres dão a luz no chão da cela.

E quando são levadas ao hospital para o parto, são algemadas na cama e agentes armados ficam olhando um momento que é sagrado. Já foi sancionada uma lei proibindo que as mulheres sejam algemadas durante o parto, mas esse absurdo continua acontecendo.

O que você já presenciou visitando o cárcere que te impactou com relação à saúde das mulheres?

Uma mãe cuidou de uma criança durante um ano e quatro meses na prisão. O filho dela ficava trancado durante cinco, seis horas na cela, e saía pela manhã.

Essa criança nunca tinha visto estrelas à noite, e nunca saiu de um presídio para conhecer a sociedade.

Quando ela saiu, estava com medo do lado de fora. A prisão marcou essa criança durante seu nascimento, e vai estar presente durante toda a sua vida.

O que deve ser feito para melhorar a saúde das mulheres nas prisões?

Precisamos de médicos especializados e capacitados para atender as mulheres, é necessário o atendimento às crianças e condições melhores de trabalho para os profissionais da saúde.

E é importante que mulheres grávidas e doentes cumpram prisão domiciliar invés de ir para as prisões. Está na lei que essa é uma opção, mas poucos juízes optam pela prisão domiciliar.

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