PAULO EVARISTO ARNS: “De esperança em esperança”

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Lembro ainda hoje o fascínio que Paulo Evaristo Arns tinha deixado num grupo de jornalistas que, foram entrevistá-lo pouco tempo antes de sua morte, por ocasião do jubileu de ouro episcopal, e como em sua vida mais que as palavras falavam os gestos, as atitudes e particularmente sua ação pastoral feita de presença e de enérgica doçura que fizeram dele uma pessoa de destaque e significativa para a Arquidiocese de São Paulo e para o Brasil.

Quinto de treze filhos, do casal Gabriel Arns e Helena Steiner, pequenos agricultores descendentes de imigrantes provenientes da Alemanha (região de Rio Mosela). Em 1940, entrou no noviciado, dos Franciscanos Menores em Rodeio (Santa Catarina) seguido do curso de filosofia em Curitiba e a teologia em Petrópolis onde em 1945 é ordenado padre. Depois disto, foi para a França para cursar letras na Sorbonne, onde se doutorou em 1952. Retornando ao Brasil, foi professor nas faculdades de Filosofia, Ciências e Letras de Agudos e Bauru. A seguir, retornou a Petrópolis, onde voltou a dar assistência aos desfavorecidos.

Foto: Outras Palavras

Em 2 de maio de 1966 foi eleito [[bispo titular de Respecta e auxiliar de São Paulo, aos 44 anos recebendo a ordenação episcopal em 3 de julho do mesmo ano, na igreja matriz do Sagrado Coração de Jesus em Forquilhinha.

Quatro anos mais tarde, em 22 de outubro de 1970, Papa Paulo VI o nomeou arcebispo metropolitano de São Paulo, tendo tomado posse a 1 de novembro do mesmo ano. No consistório de 5 de março de 1973 foi criado cardeal – presbítero do título de Santo Antônio de Pádua, na Via Tuscolana. Em 15 de abril de 1998, apresentou ao Papa João II sua renúncia por limite de idade, tornando-se emérito. Em 9 de julho de 2012 tornou-se o Protopresbítero do Colégio dos Cardeais, por ser aquele que há mais tempo foi elevado à dignidade cardinalícia entre todos os cardeais-presbíteros, sendo também o mais antigo de todos os membros do Colégio Cardinalício. Participou como votante nos Conclaves de 1978 que elegeram os Papas João Paulo I e João Paulo II. Esteve presente também nos conclaves de 2005 e 2013, mas na qualidade de cardeal não votante.

Sua atuação pastoral foi voltada aos habitantes da periferia, aos trabalhadores, à formação de comunidades eclesiais de base nos bairros, principalmente os mais pobres, e à defesa e promoção dos direitos da pessoa humana. Ficou conhecido como o “Cardeal dos Direitos Humanos”, principalmente por ter sido o fundador e líder da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, e sua atividade política era claramente vinculada à sua fé religiosa.

Em todos os momentos Ele revelou uma solidariedade real com os mais pobres e miseráveis (Mt 11, 28-30); lutou contra a injustiça, a hipocrisia, os abusos do poder, a avidez de ganho dos ricos, indiferentes aos sofrimentos dos pobres, apelando fortemente para a prestação de contas final, quando o Senhor voltará na glória para julgar os vivos e os mortos.”
Durante a ditadura militar, na década de 1970, notabilizou-se na luta pelo fim das torturas e restabelecimento da democracia no país, junto com o rabino Henry Sobel, criando uma ponte entre a comunidade judaica e a Igreja Católica em solo paulista.

Renovou o plano pastoral da Arquidiocese de São Paulo, instituindo novas regiões episcopais (divisões da Arquidiocese de São Paulo) e quarenta e três novas paróquias. Em 1972 criou a Comissão Brasileira de Justiça e Paz de São Paulo. Incentivou a Pastoral da Moradia e a Pastoral Operária.

Entre 1979 e 1985, coordenou com o Pastor presbiteriano Jaime Wright, de forma clandestina, o projeto Brasil: Nunca Mais. Este projeto tinha como objetivo evitar o possível desaparecimento de documentos durante o processo de redemocratização do país. O trabalho foi realizado em sigilo e o resultado foi a cópia de mais de um milhão de páginas de processos do Superior Tribunal Militar (STM). O livro homônimo Brasil: Nunca Mais reuniu esta pesquisa sobre a tortura no Brasil no período da ditadura militar e foi publicado pela Editora Vozes. Evaristo Arns também foi um dos organizadores do movimento Tortura Nunca Mais.

Assim escrevíamos como Pastoral Carcerária em 14 de dezembro de 2016 por ocasião de sua morte:

“Mas, será que Dom Paulo vai embora mesmo?” “Há como despedir-se de Dom Paulo?”. Repetimos hoje essas duas frases escritas, há quase 20 anos atrás, em carta da Pastoral Carcerária enviada a Dom Paulo quando ele tornava-se arcebispo emérito da Arquidiocese de São Paulo. O que era um imperativo naquele momento continua sendo agora, na páscoa de Dom Paulo: “O melhor jeito de homenagear Dom Paulo (…) é que imitemos e continuemos vivendo o seu amor para com todos os povos e todas as pessoas, que sigamos o seu exemplo de preocupação serena com a Igreja, com o País, com os Pobres, com os que estão sendo excluídos cada vez mais por esta sociedade neoliberal”.

Nós, da Pastoral Carcerária, frente ao encarceramento em massa que amontoa mais de 620 mil irmãs e irmãos nas torturantes e torturadoras cadeias brasileiras, gritamos, anunciamos e buscamos construir comunitariamente a Esperança e o sonho de Deus, “um mundo sem prisões!”. «Dom Paulo foi e é referência dessa caminhada pastoral e de tantos agentes de pastoral, mulheres e homens que, de esperança em esperança, caminham junto ao povo edificando o advento de uma vida e uma sociedade novas». Dizer “obrigado” a Dom Paulo é realizar um trabalho pastoral profético, libertador e transformador das estruturas sociais; é ser amigo das pessoas pobres e presas. E nunca deixar que a história de busca pelo Reino e pela Vida seja esquecida.

Unindo-nos à celebração do centenário de seu nascimento, queremos renovar nestes tempos difíceis e sombrios nosso compromisso com os pobres e excluídos, e de esperança em esperança continuar o projeto de Jesus proclamando a libertação dos cativos [dos presos] e continuando com o compromisso e sonho de um mundo sem prisões.

Pe. Gianfranco Graziola, IMC, assessor teológico da Pastoral Carcerária Nacional.

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