Anna Maria Gallazzi: 8 de março com as mulheres presas

 Em Mulher Encarcerada, Notícias

10 Certo sábado Jesus estava ensinando numa das sinagogas, 11 e ali estava uma mulher que tinha um espírito que a mantinha doente havia dezoito anos. Ela andava encurvada e de forma alguma podia endireitar-se. 12 Ao vê-la, Jesus chamou-a a frente e lhe disse: “Mulher, você está livre da sua doença”. 13 Então lhe impôs as mãos; e imediatamente ela se endireitou, e passou a louvar a Deus.

14 Indignado porque Jesus havia curado no sábado, o dirigente da sinagoga disse ao povo: “Há seis dias em que se deve trabalhar. Venham para ser curados nesses dias, e não no sábado”.

15 O Senhor lhe respondeu: “Hipócritas! Cada um de vocês não desamarra no sábado o seu boi ou jumento do estábulo e o leva dali para dar-lhe água? 16 Então, esta mulher, uma filha de Abraão a quem Satanás mantinha presa por dezoito longos anos, não deveria no dia de sábado ser libertada daquilo que a prendia?”(Lucas, 13,10-16)

Gosto de voltar a esta página do evangelho de Lucas, em minha reflexão pessoal e, quando consigo e a situação o permite, gosto de refleti-la com as mulheres presas que encontro nas visitas ao presídio. É página de consolo e de esperança; página que enche os olhos de lágrimas e aquece de luz o coração.

Há vinte anos celebro o dia 8 de março com mulheres presas. Há vinte anos procuramos juntas formas de celebrar caminhos de libertação na realidade cruel e desumana da cadeia. Há vinte anos nos abraçamos, cantamos juntas, de mãos dadas, nossa magia que é a estranha mania de ter: Fé na Vida!

Os dados estatísticos teimam em nos desmentir: os números esmagam em sua crueza. O INFOPEN registrou que, de 2000 ate 2016, o número de mulheres presas cresceu 656% e o Brasil é o 3º país que mais prende.

Ainda segundo o Infopen, 62% das mulheres são negras, 74% são mães e 45%, apesar de privadas de liberdade, ainda estão sem julgamento. E de 2016 até hoje estes números só fizeram aumentar!

São 42.355 mulheres negras, jovens, mães, solteiras presas atrás das grades do sistema penitenciário brasileiro. 656% a mais em relação ao total registrado no início dos anos 2000, quando eram, aproximadamente, 6 mil.

No Brasil as penitenciárias femininas são quase todas velhas penitenciárias masculinas improvisadas , ou prédios desativados, sem estruturas sanitárias para as necessidades de mulheres, sem alas para as mulheres grávidas e para as mães ficarem com seus bebês, de forma digna e confortável, como está garantido em lei.

As cadeias são superlotadas, com todo o desconforto e estresse que isso comporta. Na grande maioria das penitenciárias que abrigam mulheres o improviso, que deveria ser provisório, vira permanente. As mulheres que se adaptem a viver nele!

E quem produz as leis e é pago para fazê-las cumprir, é o primeiro a desrespeitá-las na hora na hora de tratar as presas. Do judiciário ao executivo e ao legislativo, a todos os governadores, secretários e gestores de penitenciárias, todos os homens do poder sabem da realidade das mulheres presas.

Todos os homens do poder, assim como o chefe da sinagoga no tempo de Jesus sabia, conhecem o peso injusto, insuportável e ilegal que mantém a vida das mulheres encurvadas até o chão, impedidas de se erguer, de olhar de um lado pro outro, de viver.

“Hipócritas!”, Jesus gritou. O jumento e o boi valiam mais do que a vida de uma mulher, que o demônio insaciável do privilégio de uns poucos e a cegueira da justiça seletiva mantinham presa e encurvada há longos dezoito anos.

E hoje não é diferente. As vidas das filhas de Abraão continuam sendo esmagadas: elas são as mais vulneráveis da sociedade e do sistema penal brasileiro. E com a prisão delas, dezenas de milhares de pessoas que dependem delas – pois cada mulher presa tem família – sofre as consequências desse encarceramento.

O sistema injusto que as encarcera, junto com boa parte da sociedade, reage quando se denunciam as condições desumanas de todas as cadeias. “Eles e elas merecem sofrer, fiquem trancadas: a sociedade tem que estar segura!”, se esquecendo que prender não resolve a situação da violência, pelo contrário, só a alimenta mais ainda.

Quanta hipocrisia e omissão, também em nossas igrejas e comunidades! Como são poucas as pessoas que assumem o serviço de visitação aos presos e presas e falam de sua situação, pois essas vidas são vistas como descartáveis e indesejáveis.

A situação dos presos, principalmente das  mulheres, incomoda, e a sociedade prefere ignorar. Mas devemos seguir o exemplo de Jesus, que chamou a mulher e colocou seu sofrimento no centro. Jesus a vê e resolve provocar: junto à cura, ele acrescentou a denúncia da hipocrisia e da maldade de quem julga e decide o destino dos outros e das outras.

A gloria de Deus não vem de ritos, celebrações, festas, devoções, mas sempre e somente de homens e mulheres libertos, vivos. Assumir este sonho de Deus, de um mundo sem cárceres, é o desafio da Pastoral Carcerária, com os presos e presas, frente às igrejas, à sociedade e ao sistema cada vez mais excludente e injusto.

Por isso continuarei a celebrar com elas o dia 8 de março, pedindo, insistindo, nunca desistindo! Podem chamar de petulante e insistente! Acredito no Deus da Vida, sei que Ele nos regala momentos de alegria, ensaios de Vida plena em liberdade!

Anna Maria Rizzante Gallazzi é agente da Pastoral Carcerária do Amapá, e atua hoje no RS.

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