Padre Vitor César: “É fundamental a juventude participar da Pastoral Carcerária”

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Em entrevista à Pastoral Carcerária, Padre Vitor César, Diretor Espiritual da PCr da Arquidiocese de Vitória (ES) chama a juventude a participar da PCr, se envolvendo nessa bela missão. “Eu fui um jovem encantado pela Pastoral Carcerária. E de modo especial, percebo que os jovens têm um olhar mais sensível àquelas populações mais precarizadas, mais discriminadas, mais desprezadas dentro do próprio sistema prisional. Percebam, por exemplo, o grupo que nós temos que assiste a população LGBTQIA+, é formado 80% por pessoas jovens”.

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Confira abaixo a entrevista na íntegra: 

Como tem sido esse processo de reorganização da Pastoral no estado após a pandemia?

Bom, tem sido um processo bonito eu diria. Nós estávamos presentes somente em nove das 19 unidades prisionais presentes dentro da arquidiocese de Vitória, mesmo assim algumas de modo muito precário. 

Nós fizemos neste meio tempo três grandes formações para novos agentes da PCr. E assim conseguimos formar mais de cem agentes e chegar às diversas unidades prisionais. Hoje já estamos em torno de quatorze a dezesseis.

Conseguimos também fortalecer alguns grupos. Isso foi muito positivo na medida em que a PCr atualmente é mais presente nessas realidades, faz assistências religiosas com fidelidade e perseverança. 

Algumas delas nós conseguimos ir para além da mera assistência religiosa no sentido da visita, do acolhimento, da oração, da proclamação da palavra, dos sacramentos, mas conseguimos também fazer outras atividades, como por exemplo a catequese, a iniciação cristã e claro, junto disso, a defesa da dignidade do irmão e da irmã encarcerada, das torturas, os maus tratos e as condições insalubres. 

Eu diria que graças a Deus nós temos feito um caminho positivo mas ao mesmo tempo também reconheço que ainda tem muita coisa a se avançar, seja do trabalho intracárcero, de modo que nós consigamos chegar de fato a todas unidades prisionais e que em cada uma delas haja uma assistência completa, plena, formação dos agentes.

Eu sinto bastante falta disso, a gente não conseguiu avançar na perspectiva do pós cárcere, né? De como acolher esses irmãos sobreviventes ou egressos, e também um trabalho de mais responsabilidade com as famílias. 

As famílias recorrem com alguma frequência, principalmente a mim, mas também alguns outros agentes da pastoral carcerária, de modo especial quando os próprios familiares ou os irmãos detentos sofrem um processo de violação e, claro, nós acolhemos, rezamos, damos encaminhamentos às denúncias e cobramos do poder público.

Ao mesmo tempo eu sinto que falta de fato um espaço de acolhimento, de identificação, de partilha desses familiares como o espaço também eclesial, também da Pastoral Carcerária. Então, é o sonho que a gente consiga dar esses passos, mas ainda distante no horizonte, infelizmente. 

Você está aqui com duas pessoas bem jovens que fazem parte da pastoral. Fizemos uma pesquisa há um tempo atrás e constatamos que a maioria dos agentes pastorais são pessoas mais velhas. Na sua opinião, qual a importância de ter mais gente jovem na pastoral?

Eu vejo como importância essencial e, de fato, nós estamos tentando trabalhar nesse sentido. Em primeiro lugar, porque eu fui um jovem encantado pela Pastoral Carcerária. Então muito jovem comecei a atuar na comissão (?) da arquidiocese na luta pela defesa da dignidade humana dos irmãos encarcerados. E no seminário conheci melhor o trabalho da PCr. Me encantei por esse trabalho como seminarista e me tornei agente.

E há dois anos atrás, quando eu fui ordenado presbítero e assumi esse papel, primeiro como diretor espiritual da PCr da arquidiocese de Vitória, depois como coordenador da regional leste três. E desde então, tenho feito um grande esforço de encantamento dos jovens.

Então sempre que posso nos espaços de juventude dos mais diversos, como pastoral de juventude, AC e vários outros grupos, eu trago a vida dos irmãos encarcerados, chamando atenção de que nós por um profundo amor a Cristo Jesus vamos ao encontro dele na pessoa do irmão encarcerado, e assim brota a alegria do evangelho e nessa proposta de alegria, felicidade, completude, muitos jovens graças a Deus tem se encantado e tem participado. 

Então, na arquidiocese, posso afirmar que nacionalmente isso é reconhecido como um ponto positivo. Nós, hoje, temos um número significativo de jovens. Claro que a maioria ainda são pessoas mais maduras, mas hoje nós temos, talvez, uns 30%, 40% cento da arquidiocese de agentes jovens ou no mínimo com menos de trinta ou quarenta anos. Mas alguns bastantes jovens mesmo. 

Vejo isso com muita alegria. De modo especial, percebo que os jovens têm um olhar mais sensível àquelas populações mais precarizadas, mais discriminadas, mais desprezadas dentro do próprio sistema prisional. 

Percebam, por exemplo, o grupo que nós temos que assiste a população LGBTQIA+, é  formado 80% por pessoas jovens. Só tem uma pessoa idosa, o resto é jovem. Eu vejo como positivo. São pessoas que estão mais antenadas ao debate sobre orientação sexual, sobre diversidade de gênero, isso é bom. Por exemplo, em um presídio feminino, nós temos uma grande quantidade de jovens. 

Em relação aos seminaristas, especificamente, nós também estamos fazendo um trabalho enquanto regional leste 3 eu diria, de presença nos seminários. Isso é muito importante. Se essa presença nos seminários de lá, de apresentar a pastoral carcerária, de convidar o seminarista para se integrar a pastoral, eu vejo que existe uma contribuição própria que o seminarista pode dar. Isso é interessante, né?



Os grupos de PCr que tem presença do seminarista, mesmo que às vezes o seminarista não consiga estar toda semana, já que ele tem as suas atividades pastorais, mas se ele consegue de quinze em quinze dias, ele consegue uma vez por mês, aquele grupo é um grupo que se anima, é um grupo que fica mais vivo, sabe? É uma presença que faz bem ao grupo da PCr. 

Em segundo lugar, faz bem aos nossos irmãos detentos, porque ele está conhecendo alguém que está se preparando, alguém que vai ser padre. Isso de algum modo faz com que a mensagem seja acolhida com mais intensidade, com mais fervor. 

E acima de tudo, faz com que os seminaristas sejam formados naquilo que o Papa Francisco nos pede: pastores com cheiro de ovelha. Quem são nossas ovelhas? São as ovelhas perdidas da casa de Israel. São os irmãos e as irmãs, últimos, últimas. E obviamente os irmãos encarcerados. 

Eu até brinco que em certo momento a irmã Petra, coordenadora nacional da PCr, quando eu era um padre recém-ordenado há pouco menos de dois anos, falou o seguinte: “Pe. Vitor vai ser um padre com cheiro de presídio”. 

Eu brinco que eu não sabia se ela estava me humilhando ou me elogiando, porque todos nós sabemos que o presídio tem um cheiro horrível. As pessoas que vão pela primeira vez, em geral, ficam nauseadas. O que é muito triste, é a expressão de como os nossos irmãos são tratados.

Mas, por um lado, foi um dos elogios mais bonitos que eu já recebi na minha vida. A gente deve conviver, viver junto, viver com e nada melhor para aquele que quer se configurar a Jesus o bom pastor, claramente falando de seminaristas, de conviver com Cristo Jesus na pessoa do irmão encarcerado. 

Hoje na arquidiocese de Vitória nós temos seis irmãos seminaristas, uns atuam mais, outros atuam menos,mas que estão conosco na Pastoral Carcerária. Também já tive a oportunidade de apresentar a PCr e alguns outros seminários. 

Em síntese, eu diria que a presença dos seminaristas nos anima bastante, porque temos a garantia de que teremos, no futuro, padres mais sensíveis aos irmãos encarcerados e os oprimidos como um todo do que temos hoje. Infelizmente, hoje, nós temos pouca presença dos ministros ordenados, não só no cárcere, mas nas pastorais sociais. 

Nós como igreja devemos assumir esse compromisso de formar ministros ordenados com cheiro de ovelha, comprometidos com esses irmãos e claro, puxando essa energia pro nosso lado com os irmãos encarcerados.

Entrevista e edição de texto: José Coutinho Júnior
Edição de vídeo: Maria Ritha Paixão
Transcrição: Isabela Menedim

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