Missão ‘imprimiu em nossa caminhada as chagas dos que sofrem nos presídios’

 Em Igreja em Saída

Interna_seminarista_prisaoNo começo de julho, Maykon Florêncio, seminarista da Arquidiocese de São Paulo esteve com a Pastoral Carcerária em prisões da cidade de São Paulo durante a Missão de Férias. Neste artigo, ele relata as impressões das experiências de vividas e o quanto estas devem impactar em seu caminho formativo e vocacional.
 
Impressões da ida às prisões com a Pastoral Carcerária
A experiência missionária para seminaristas nos proporciona tocar diversas realidades humanas, principalmente aquelas encontradas nas periferias existenciais. Por isso, todo ano, um grupo de vocacionados se esforça para ir ao encontro de muitos irmãos e irmãs imersos num mar de indiferença, de falta de esperança e abandono.
A missão junto a Pastoral Carcerária nos permitiu transpor muros, ultrapassar os limites que nos separam daqueles considerados pela Justiça como ameaça a ordem e segurança sociais. Além dos limites físicos, a missão nos convida a romper os limites não visíveis, mais difíceis de vencer do que as grades de um cárcere, porque são os limites que nos enclausuram em nossos preconceitos e em nossa cegueira política e social, em nossa indiferença justificada pela incapacidade e coragem de viver a proposta evangélica: “estava nu e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e fostes visitar-me” (cf. Mt 25,36).
Uma penitenciária parece, a princípio, a justiça em seu efeito, quando a justiça, enfim, se faz visível, pois alguém está lá pagando por um erro cometido. No entanto, quando lançamos um olhar mais profundo, mais crítico, a partir do Evangelho de Jesus Cristo, percebemos claramente que a prisão tornou-se um ambiente muito mais de injustiça e violência à dignidade humana. A justiça em seus efeitos levou à morte e não à vida. Como nos exortou Jesus, “se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos Céus” (Cf. Mt 5,20). A justiça é um princípio bom quando não utilizada para alimentar uma indústria da miséria e do descaso.
O nosso sistema judiciário é moroso, burocrático, corrupto e este tipo de lei mata. O perfil social que encontramos destro dos presídios é em sua esmagadora maioria de jovens pobres, com pouca escolaridade, de famílias desestruturadas, oriundos de nossas periferias. A cadeia torna-se, assim, o espaço de descarte, de uma política social e econômica perversa. Cadeias superlotadas apenas demonstram o quanto estamos distantes de combater as causas, já que as estatísticas demostram que a população carcerária cresceu, mas a violência não diminuiu.
Durante nossa missão carcerária, numa feliz e profética coincidência, o Papa Francisco visitou o maior presídio da Bolívia e afirmou: “a reclusão não é exclusão”. Isso significa, na prática, que a reclusão deveria ser uma medida educativa de ressocialização. No entanto, a reclusão em nossos presídios fere todos os direitos, sim, pois aquele que está cumprindo uma pena em regime fechado não deixou de ter direitos, apenas perdeu temporariamente sua liberdade. O efeito mais grave da omissão desses direitos é quando a dignidade humana é ferida. Sob as condições desumanas, os homens e mulheres encarcerados buscam sobreviver em ambientes insalubres, celas superlotadas, sem respaldo jurídico e na escassez de atividades e trabalhos socioeducativos.
A Pastoral Carcerária oferece total assistência religiosa a estes irmãos e irmãs, mas o comprometimento com cada vida dentro das celas ultrapassa a dimensão espiritual e esta é a característica que faz da Pastoral Carcerária um instrumento de vida muito respeitado dentro dos presídios. Instrumento de vida, de vida em sua plenitude, já que a Pastoral Carcerária busca ajudar a pessoa presa em sua integralidade, alcança cada detento em suas realidades extramuros, toca suas histórias e suas famílias, é, de fato, a voz da pessoa presa dentro e fora das penitenciárias. Um testemunho em perfeita concordância com o Evangelho, o espiritual e o social em seu equilíbrio, o ser humano visto em sua completude, a pessoa presa cuidada e assistida em sua dignidade plena.
Para o grupo de seminaristas que viveu essa missão com toda alegria que provém do serviço, imprimiu em nossa caminhada formativa e vocacional as chagas dos que sofrem em nossos presídios, e um grande ímpeto de lutar por verdadeira justiça, de viver um Evangelho comprometido com a vida, crítico às realidades humanas mais esquecidas, pelo desejo de esperança para nossa juventude, pelo esforço de saciar tanta sede de Deus que há dentro dos cárceres, pois “a colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos”, pouquíssimos na verdade. Também foi a oportunidade de dar os primeiros passos rumo ao Ano Jubilar da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco. O objetivo de levar uma palavra e um gesto de consolação e de fazer um apelo aos nossos movimentos pastorais, aos discípulos e missionários de Cristo, que olhem para a população carcerária, sejam sua voz diante de um sistema degenerativo, que se comprometam com suas dores e sofrimentos.
 
Por Maykon Florêncio,
Seminarista da Arquidiocese de São Paulo.
 
Relato de outro seminarista que esteve na atividade
“Vede que manifestação de amor nos deu o Pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos!” (1Jo 3,1)
Fazer a Missão de Férias junto com a Pastoral Carcerária me recordou muito essa passagem. Diante de uma realidade onde os presos se sentem como lixo humano, nós fomos com a missão de mostrar justamente o contrário: de lembrar a cada deles que somos filhos amados de Deus; que se os homens falham, Deus é justo e fiel; que se aparecem muitos lá para simplesmente rezar e ganhar fiéis, nós, como seguidores do Cristo, queremos que eles tenham os seus direitos respeitados e possam viver na dignidade dos filhos de Deus, na dignidade que todos os humanos merecem.
Não foi uma missão de rezar em todos os momentos, mas de ir ao encontro de cada irmão encarcerado e mostrar com atitudes o rosto amoroso e misericordioso de Deus.
 
Por Álvaro Moreira Gonçalves,
Seminarista da Arquidiocese de São Paulo.
 
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