CF 2020 e Pastoral Carcerária

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A Campanha da Fraternidade 2020 nos indica que o nosso”próximo”  está, muitas vezes, ao nosso lado, inclusive nos encarcerados.

Por Gianfranco Graziola

A Campanha da Fraternidade (CF) de 2020 nos provoca, focando o tema da vida como dom e compromisso. Mas desta vez para falar da vida usa duas metodologias ao mesmo tempo: a de uma leitura da realidade a partir da parábola do Bom Samaritano para depois completar, enriquecer, atualizar essa mesma leitura com uma samaritana de nosso tempo e, melhor ainda, parte de nossa realidade brasileira: Santa Dulce dos Pobres.

Evangelho em nossos dias

Com a escolha da figura do Bom Samaritano, uma das parábolas da misericórdia, a Campanha da Fraternidade e através dela a Igreja no Brasil, nos pede para fazer uma releitura da realidade com os olhos de uma comunidade pluriétnica e pluricultural que, se confronta e muitas vezes choca com o legalismo judeu-cristão e com as doutrinas e prescrições farisaicas do templo, preocupadas mais com a exterioridade, com as leis da pureza do que propriamente com a vida humana.

Dimensão essa claramente apresentada no sacerdote e no levita, que escolhem passar longe e nem olhar para a vida em perigo para não manchar seu status e reputação. Diferente é a postura do samaritano, que, embora tendo uma inimizade profunda com quem está caído no caminho da vida, e carregando o estigma de herege, passando não hesita, e movido pelo olhar da compaixão, para, se aproxima, se dispõe a gastar o seu tempo modificando sua viagem e adiando seus negócios para dar prioridade e cuidar daquele desconhecido e, em lugar de passar longe se aproxima dele, aliviando suas dores e se encarregando de pagar pessoalmente as despesas de uma hospedagem que garanta sua plena recuperação.

Essa parábola é uma resposta clara para o doutor da lei indicando em toda e qualquer pessoa que encontramos em nosso caminho ou da qual nos aproximamos, o “próximo”. Para Jesus a vida é algo concreto, é compromisso fraterno que nos faz permanecer junto de e comprometer-nos com, atitudes que nascem do VER, SENTIR COMPAIXÃO e  CUIDAR. Mas existe a grande e grave questão de fundo colocada à nossa cultura globalizante, individualista, da indiferença e do egoísmo alimentada e fundamentada na teologia da prosperidade que, como o doutor da lei se preocupa de como pode adquirir, ou melhor ter como justa recompensa a vida eterna. A resposta que recebemos e não queremos ouvir, e que se transforma em Evangelho para nós é: seja você samaritano,
samaritana.

A samaritana de nossa história

Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes nasceu em Salvador, Bahia, no dia 26 de maio de 1914. Filha de Augusto Lopes Pontes, dentista e professor da Universidade Federal da Bahia, e de Dulce Maria de Souza Brito Lopes Pontes. Ainda na adolescência, começou a desenvolver a sua missão de ajudar os mendigos, carentes e enfermos. Aos 13 anos graças ao seu destemor e senso de justiça passou a acolher mendigos e doentes em sua casa, transformando a residência de família num centro de atendimento conhecido como “A Portaria de São Francisco”, tal o número de carentes que se aglomeravam à sua porta.

Tendo iniciado a sua caminhada junto às Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em São Cristóvão, Sergipe, depois da profissão religiosa ela retornou para Salvador, onde se viu imersa numa realidade de miséria e de pobreza que em suas palavras assim descrevia: “As lágrimas enchiam meus olhos… o meu coração estava invadido pela dor em ver tanta miséria ao meu redor”.

Foi assim que, caminhando ao lado dos abandonados à margem do sistema que exclui e flagela seu povo, tornou-se sinal de uma vida inteiramente doada ao próximo, tal qual o bom samaritano do Evangelho.

Um olhar samaritano

De fundamental importância para o nosso tempo é o olhar, é o tipo que nós assumimos ou não assumimos, o que nós queremos ou não enxergar, o que queremos ou não ver, o olhar da indiferença que mata e exclui a vida, destrói a natureza, e não quer se comprometer com o outro, sua vida, com o bem comum. E como deixar de nos confrontar com o olhar do ódio, das discriminações. O olhar amargo, desiludido, apenas para o que é negativo. No meio destes olhares negativos, existem olhares de solidariedade social, samaritanos capazes de ter compaixão, de parar, de se curvar, ajoelhar, carregar as fragilidades e as dores da vida de tantos irmãos e irmãs.

Um destes olhares é o dos seis mil agentes da Pastoral Carcerária, samaritanos e samaritanas que semanalmente carregam e cuidamdos 800 mil encarcerados de nosso Brasil. Presença de evangelização e promoção da dignidade humana rumo a um mundo sem cárceres. E este olhar é um olhar de compaixão, de ternura, de amor, solidariedade, fraternidade para quem nunca na vida
teve alguém que parou , olhou para ele, se preocupou com sua vida, cuidou de suas feridas e dores, derramou sobre elas o óleo da compaixão e da misericórdia.

Olhar que choca e se confronta com o olhar dos novos fariseus, saduceus, levitas e doutores da lei de nosso tempo que, “vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista, ou então relativizando-o e ao mesmo tempo se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente” [GeE, n.º101].

O olhar samaritano compassivo é aquele que tem mais justiça no coração, que não se coloca tantos porquês deixando espaço ao coração na busca da verdadeira justiça e que não deixa de fora os seres humanos que, de modo algum podem retribuir: os pobres, os pecadores, os inimigos. E isso ao dizê-la com papa Francisco é a Ecologia Integral.

Gianfranco Graziola, imc, é diretor presidente da Associação de Apoio e Acompanhamento da Pastoral Carcerária Nacional (ASAAC).

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