
“Nada é impossível quando o amor se faz presente e circula no meio de nós”, diz a Irmã Barbara Kiener sobre o projeto que busca enxergar a pessoa além do crime
Na última terça-feira (28), a Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Goiânia marcou uma data especial: a certificação da primeira turma do projeto “Além da Punição”, na Unidade Prisional Regional Feminina de Aparecida de Goiânia. Sete mulheres concluíram o ciclo de Círculos de Construção de Paz — um espaço criado para que elas pudessem falar, ser ouvidas e, a partir daí, ressignificar suas histórias.
O projeto é resultado de uma parceria entre o Núcleo de Justiça Restaurativa do TJGO, a Pastoral Carcerária e a DGPP, e aposta em algo simples e ao mesmo tempo raro dentro do sistema prisional: a escuta. Para as participantes, ser ouvida com respeito foi, em muitos casos, uma experiência inédita.
O que acontece nos círculos
A Irmã Barbara Kiener, Missionária de Cristo e agente da Pastoral, acompanhou o processo de perto. Segundo ela, os encontros foram além de uma atividade institucional. As mulheres aprenderam a reconhecer e nomear sentimentos que carregavam há anos — raiva, rancor, violências sofridas às vezes desde a infância — e a identificar necessidades básicas que o cárcere tende a apagar: o senso de pertencimento, o amor, a percepção de que ainda possuem valores capazes de orientar uma vida diferente.
“Ao expressarem essas dores em um ambiente seguro, elas puderam se libertar de culpas e ressignificar o passado através do perdão — entendido aqui como uma necessidade humana, como um dom que liberta para o futuro”, conta a Irmã Barbara.
Mas o processo não parou no reconhecimento da própria dor. Um dos movimentos mais significativos dos círculos foi justamente o seguinte: depois de encarar os danos que sofreram, as participantes conseguiram olhar também para os danos que causaram. Esse passo — difícil e necessário — gerou em muitas o desejo genuíno de não reincidir, e um novo senso de responsabilidade sobre o próprio futuro.
“Isso restaurou minha vida”
Ao sentirem que as facilitadoras acreditavam no seu potencial de mudança, as mulheres se sentiram empoderadas. Muitas se descreveram como “novas criaturas” — uma virada que se refletiu na forma como passaram a se ver como filhas, mães e avós.
J.G.R. está presa há 12 anos e foi uma das participantes desta primeira turma. Ela conta que, pela primeira vez, encontrou um espaço real para falar sobre o que carregava. “Aqui contei da minha infância e de sentimentos guardados que me fizeram libertar coisas dentro de mim. Isso restaurou minha vida. Agradeço por me enxergarem”, disse, acrescentando que quer escrever um livro para reescrever sua história com as próprias palavras.
O impacto não ficou restrito ao círculo. As sete formandas passaram a atuar como multiplicadoras dentro da unidade prisional, levando práticas de não-violência e de diálogo para as próprias celas — introduzindo, no cotidiano do presídio, formas diferentes de lidar com conflitos.
Uma presença que continua
A Irmã Barbara reconhece que a experiência também transformou quem facilitou os encontros. “Nós saímos desses círculos diferentes de como entramos: com os ouvidos cheios de histórias e o coração transbordando da certeza de que nada é impossível quando o amor se faz presente e circula no meio de nós.”
Para a Pastoral Carcerária, encerrar este primeiro ciclo não é um ponto final — é uma confirmação de que vale a pena insistir na presença dentro do cárcere. Como resume a Irmã Barbara: “Ao descobrirem-se ‘parceiras da vida’, essas mulheres celebram o nascimento do novo — um processo que, embora possa ser doloroso como um parto, resulta em alegria, generosidade e esperança na vida aqui e agora e no futuro.”


