Reflexões do Padre João Poli sobre os massacres em Manaus

 Em Combate e Prevenção à Tortura, Notícias

Leia abaixo duas reflexões do padre João Poli, da coordenação estadual da PCr em Manaus, escritos no domingo e na segunda-feira, quando ocorreram as mortes:

Como você está se sentindo?

Você está sabendo, morreram quinze homens no complexo penitenciário de Manaus.

Você teria sentimentos diferentes se tivesse desmoronado mais uma barragem e matado quinze operários? Ou se quinze crianças indígenas tivessem sido envenenados pelo mercúrio de uma mineradora? Se em vez disso, quinze garimpeiros tivessem sido massacrado pelos indígenas? Ou se um louco tivesse morto a tiros catorze adolescente numa escola, antes de se suicidar?
O que você está sentindo?

Pois morreram quinze pessoas, mas só morreram ‘internos’. Se damos – e damos – diferente peso aos defuntos, se na frente da morte assumimos um partido e entramos numa torcida, temos pensamentos e sentimentos que precisam de luz.

Hoje em Manaus ocorreu mais um desastre ecológico: a lei da vida foi traída, pisada, anulada. Se colocamos algumas vidas na serie A, e outras na segunda categoria, estamos disposto a aceitar que haja condições onde o índio possa valer menos, o negro possa valer menos, o estrangeiro (não branco, é claro!) possa valer menos. A estrada da discriminação leva longe.

A cadeia encandeia: de um lado cega nossos sentimentos de piedade, do outro mostra com clareza que precisamos de luz, de reflexão.

A Amazônia, com suas mortes nas cadeias, pede a todo mundo de fazer respiros diferentes: precisamos oxigenar nossa antropologia, nosso modo de olhar para o ser humano – todo ser humano – precisa de um espírito diferente.

Minha reflexão hoje para aqui. Falta uma conclusão. É noite para a minha alma, é noite também para o meu corpo. Percebo que falta clareza, mas o sono me impede de articular o raciocínio. Hoje a noite partilho a reflexão sobre a escuridão.


Se eu tivesse uma empregada doméstica que em dois dias quebra sessenta pratos, não deixaria passar um minuto. Ela pagaria as contas imediatamente.

O Amazonas tem uma firma que dois anos atrás demonstrou absoluta incapacidade de lidar com uma fuga e uma rebelião.

Deixou fugir e deixou matar um horror de gente (nunca aparece na contabilidade oficial quantos morreram perseguidos enquanto corriam na selva, calçando havaianas e desarmados, fugindo de soldados armados com botas nos pés; a página que falava de duzentos mortos, saiu do ar).

Umanizzare está ainda lá. Ganhando seu salário.

Continua incapaz de cumprir com sua missão. Continua morrendo gente entregue aos seus cuidados. 57 em dois dias.

O secretário de administração penitenciária repete que “neste momento, a situação está controlada”.
Não diz por quem.

Padre João – Manaus

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