Artigo | Os relatos de Altamira: ‘meu filho foi totalmente carbonizado’

 Em Combate e Prevenção à Tortura, Notícias

*Irmã Petra Silvia
Para a Ponte Jornalismo

O massacre ocorrido no Centro de Recuperação Regional de Altamira, no sudoeste do Pará, é o segundo maior da história do Brasil após o massacre do Carandiru, com um total de 62 mortes. A coordenação nacional da Pastoral Carcerária, cumprindo sua missão de estar ao lado dos presos e seus familiares, foi até Altamira para prestar solidariedade, ouvir o que os familiares tinham a dizer e não deixar que mais um massacre no sistema penal seja esquecido pela sociedade após a comoção inicial causada.

Quando chegamos, ficou claro o pouco valor à vida e a falta de empatia que o Estado tem com os mortos e seus familiares. Nos dirigimos ao Batalhão Militar da Polícia Militar, onde havia um caminhão frigorífico que continha os corpos de presos que ainda não haviam sido identificados.

Desse caminhão saía um líquido. Não conseguimos dizer o que era esse líquido – chamado de “sal” por um dos familiares que lá estava -, se os corpos estavam se decompondo ou se o caminhão era mal refrigerado; mas seria discutido com as famílias a possibilidade de enterrar os presos com uma numeração, e esperar de 20 a 30 dias para sair o resultado de um exame de DNA para identificar os corpos. Ou seja, muitas famílias ainda não tinham nem como enterrar os seus mortos, e muitas irão enterrar seus entes queridos como indigentes.

Uma das familiares de um dos presos mortos, cujo corpo estava no caminhão frigorífico, nos contou que o preso comunicou à família e ao presídio que o massacre ia acontecer. “Ele ficou sabendo. Fez bilhetes, mandou para a diretora do presídio, mas eles não ligaram”.

O clima de apreensão na cidade, pelo que ainda pode acontecer, é grande. Muitos familiares estão com medo, sofrendo ameaças. “Nossa família está toda com medo. A gente começou a receber ligações com o número privado, a pessoa não fala nada e desliga”, disse uma familiar.

O peso de perder o filho, para uma mãe com quem conversamos, era tão grande que no momento ela não conseguia chorar porque estava medicada: “a ficha vai cair mais tarde, e nem sei como vai ser”. Essa mãe nos falou que, um dia antes do massacre, seu filho disse a ela que precisava de assistência médica, pois estava escarrando sangue.

A violência era comum na prisão de Altamira. “A esposa dele dizia que ele estava todo machucado. Quando eu fui fazer minha carteirinha para visitar, me disseram para não me preocupar, que meu filho não ia sofrer nenhum arranhão. Agora meu filho está morto. O que esperar de um lugar desse?”, se revolta a mãe.

Ela também relatou que foi à porta da prisão no momento em que o massacre ocorria, mas que, quando chegou, seu filho já estava morto. “Não fiquei muito tempo lá na porta, comecei a passar mal e vim para casa. Você chega lá, fica naquela ansiedade, fazendo oração… meu filho foi totalmente carbonizado, ficou sem as mãos, sem os pés, com o rosto deformado”.

As denúncias sobre as condições do presídio de Altamira por parte dos familiares também não paravam de chegar até nós. As principais eram que os presos estavam desde o dia do massacre usando apenas cueca, dormindo no chão, bebendo água da torneira, descalços. As celas estão superlotadas, tem ratos, baratas e são muito quentes. Também não há atendimento médico para os presos que estão feridos, ou o encaminhamento destes presos para uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento).

Conseguimos entrar na penitenciária na terça-feira (6/8), junto com a Defensoria Pública do Pará e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), mas a visita foi somente na ala de contêineres, celas desumanas nas quais caminhamos por cima dos presos, como se estes fossem animais.

Não nos permitiram entrar em outras alas, alegando questões de segurança. Foi difícil de falar com os presos, pois a escolta policial era pesada, mas eles estavam muito assustados. Disseram que as visitas foram suspensas por 15 dias e que eles estão proibidos de sair para o banho de sol no pátio há uma semana.

Não se pode reduzir um massacre desses simplesmente à guerra entre facções, como o poder público vem tentando fazer. O que aconteceu em Altamira é fruto da máquina de moer gente que é o sistema carcerário brasileiro, com suas péssimas condições, torturas físicas, psicológicas e violências, e também do contexto social da cidade de Altamira.

Altamira é, segundo o Atlas da Violência, a segunda cidade mais violenta do país, com um índice de mais de 100 mortos a cada 100 mil habitantes.
A cidade não era assim antes do início da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Quando as empreiteiras chegaram à cidade, a população aumentou de forma desordenada por conta da obra e, após a construção da usina, os índices de desemprego cresceram.

Uma das familiares, que é ribeirinha, sentiu junto com a sua família os efeitos de Belo Monte na pele. Ela conta, com lágrimas nos olhos, que a pesca, atividade tradicional e meio de subsistência dos povos ribeirinhos, acabou; os peixes estão com gosto diferente por conta do esgoto lançado no rio, e estão cheio de vermes. As pessoas que comem pegam doenças

“Tudo de ruim que você possa imaginar Belo Monte trouxe para nossa cidade e nossas vidas. Fomos afetadas primeiramente com nosso território, principalmente nós ribeirinhos, fomos tratados como bichos, sem apoio nenhum, ou qualquer providência de autoridades. Desmataram nossas florestas, mataram nosso rio Xingu, o que é uma coisa que é praticamente irreversível. Existe um cemitério de árvores mortas na margem”.

A solução que o Estado tem dado para a violência é a construção de novos presídios. Um está sendo financiado pelo consórcio Norte Energia, e a previsão é que seja entregue ainda este ano.

Mais vagas e mais presídios não resolvem o problema do encarceramento; pelo contrário, isso só irá gerar mais encarceramento e violência. E nos diz muito o fato do consórcio cuja obra causou tanta dor ao povo de Altamira, aumentando a violência e desigualdade na cidade, custear a construção de um presídio para descartar a população indesejada resultante de todo esse processo.

Como nos disse uma familiar, “eles fazem o que querem em Altamira, a Norte Energia manda aqui, e quem paga somos nós, com as nossas vidas”.

*Irmã Petra Silvia é coordenadora nacional da Pastoral Carcerária.
As identidades dos familiares foram omitidas por questões de segurança

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