
A educação sempre foi uma das expressões mais altas da caridade cristã. Papa Francisco recordava a um grupo de educadores: “A vossa é uma missão cheia de obstáculos, mas também de alegrias […]. Uma missão de amor, porque não se pode ensinar sem amar.” Desde os primeiros tempos, os cristãos compreenderam que o saber liberta, dignifica e aproxima da verdade. Ensinar os pobres era, para a Igreja, um ato de justiça e fé.
No final do século XVI, São José de Calasanz, impressionado pela falta de instrução dos jovens pobres de Roma, deu vida à primeira escola pública popular e gratuita da Europa, junto à Igreja de Santa Dorotéia, no Trastevere. Dessa iniciativa nasceu a ordem dos Padres Escolápios. No século XVII, São João Batista de La Salle percebeu a injustiça da exclusão dos filhos de operários e camponeses do sistema educacional francês e fundou os Irmãos das Escolas Cristãs, oferecendo ensino gratuito e formação sólida num ambiente fraterno.
No século XIX, também na França, São Marcelino Champagnat fundou o Instituto dos Irmãos Maristas das Escolas, sensível às necessidades educativas e espirituais da juventude, sobretudo as mais pobres. Na Itália, São João Bosco iniciou a obra salesiana, baseada no “Método preventivo” — razão, religião e amabilidade — enquanto o Beato António Rosmini fundou o Instituto da Caridade, apresentando a “caridade intelectual” como indispensável para qualquer ação caritativa voltada ao bem integral da pessoa.
Muitas Congregações femininas também desempenharam papel central nessa revolução pedagógica. Ursulinas, a Ordem da Companhia de Maria Nossa Senhora, as Mestras Pias e outras fundadas nos séculos XVIII e XIX ocuparam espaços onde o Estado era ausente, fundando escolas em vilarejos, periferias e bairros operários. A educação das meninas tornou-se prioridade, ensinando com proximidade, paciência e doçura, transmitindo valores pela vida antes das palavras.
Para a fé cristã, educar os pobres não é um favor, mas um dever. Os pequenos têm direito à sabedoria, reconhecimento de sua dignidade e instrumentos para transformar sua realidade. O saber é dom de Deus e responsabilidade comunitária.
A experiência da migração acompanha a história do povo de Deus. Abraão parte sem saber o destino; Moisés conduz um povo pelo deserto; Maria e José fogem para o Egito. Cristo próprio, que “veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1, 11), viveu como estrangeiro. No século XIX, milhões de europeus emigravam em busca de vida digna, e dois santos se destacaram: São João Batista Scalabrini e Santa Francisca Xavier Cabrini, esta proclamada padroeira de todos os migrantes pelo Papa Pio XII em 1950. Cabrini cruzou o Atlântico inúmeras vezes, fundando escolas, hospitais e orfanatos para migrantes desprovidos de recursos e vítimas da exploração. Hoje, esse serviço continua nos centros de acolhimento para refugiados, missões nas fronteiras e iniciativas da Caritas Internationalis, reafirmado pelo magistério contemporâneo do Papa Francisco: “A resposta ao desafio das migrações pode-se resumir em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar.”
A santidade cristã frequentemente floresce entre os últimos da sociedade. Os mais pobres — não apenas privados de bens, mas também de voz e dignidade — ocupam lugar especial no coração de Deus. Eles são os preferidos do Evangelho, herdeiros do Reino (cf. Lc 6, 20), e é neles que Cristo continua a sofrer e a ressuscitar. Santa Teresa de Calcutá dedicou-se aos moribundos abandonados nas ruas da Índia, lavando feridas e acompanhando-os até a morte com ternura de prece. No Brasil, Santa Dulce dos Pobres, o “anjo bom da Bahia”, encarnou o mesmo espírito, acolhendo doentes em um galinheiro e fundando uma das maiores obras sociais do país. Outros exemplos incluem São Bento Menni, São Charles de Foucauld, Santa Katharine Drexel e Irmã Emmanuelle, cada um descobrindo que os pobres são mestres do Evangelho e não meros objetos de compaixão.
Ao longo dos séculos, movimentos populares formados por leigos enfrentaram perseguições, mas demonstraram que a solidariedade verdadeira envolve lutar contra as causas estruturais da pobreza, desigualdade e negação de direitos sociais e laborais. Eles ensinam que políticas sociais devem ser feitas com os pobres, e não apenas para eles.
A história da atenção da Igreja aos pobres se reflete no magistério dos últimos cento e cinquenta anos: Leão XIII, na Rerum Novarum, abordou o trabalho e a intolerável situação dos operários; São João XXIII, na Mater et Magistra, clamou por justiça global; o Concílio Vaticano II reafirmou a centralidade dos pobres na missão da Igreja, enquanto São Paulo VI destacou a atenção da Igreja a toda humanidade que sofre; São João Paulo II consolidou a opção preferencial pelos pobres; Bento XVI, na Caritas in veritate, alertou para a fome e a necessidade de instituições sociais adequadas; e o Papa Francisco sublinha o compromisso das conferências episcopais e da Igreja latino-americana com os mais necessitados. O Papa Leão XIV recorda:
“Eu mesmo, missionário no Peru durante tantos anos, devo muito a este caminho de discernimento eclesial, que o Papa Francisco com sabedoria soube unir ao de outras Igrejas particulares, especialmente do chamado Sul global. Gostaria, agora, de retomar dois temas específicos deste magistério episcopal.”
O primeiro tema refere-se às estruturas de pecado que criam pobreza e desigualdades extremas. Leão XIV, retomando a opção preferencial pelos pobres de Medellín, afirma que a pobreza clama por justiça, solidariedade, testemunho e esforço. Puebla qualificou as estruturas de injustiça como “pecado social”. A caridade é força transformadora e exige denunciar a “ditadura de uma economia que mata”, enquanto a dignidade de cada pessoa deve ser respeitada agora. A Encíclica Dilexit te nos lembra que o pecado social forma “estruturas de pecado” apoiadas numa mentalidade que normaliza o egoísmo e a indiferença, gerando alienação social. Ignorar os pobres torna-se normal, mas a falta de equidade é a raiz dos males sociais e ameaça o futuro da sociedade e do planeta. O Magistério enfatiza que conversão espiritual, amor intenso a Deus e ao próximo e zelo pela justiça e paz são exigidos a todos, especialmente aos pastores.
O segundo tema é os pobres como sujeitos. A Conferência de Aparecida explica que a opção pelos pobres está implícita na fé cristológica em “Deus que se fez pobre por nós”. As comunidades marginalizadas são capazes de criar cultura própria e devem ser ouvidas. O pobre educa, vive solidariedade, procura Deus e dá vida à Igreja. Assim, todos devem deixar-se evangelizar pelos pobres, reconhecendo a sabedoria que Deus comunica através deles.
A história bimilenária da atenção da Igreja aos pobres mostra que o amor aos pobres é garantia evangélica de fidelidade a Deus. O Papa Francisco, retomando a parábola do bom samaritano (Lc 10, 25-37), desafia-nos: “Com quem te identificas?” A indiferença de hoje, concentrada em interesses próprios, cega para a dor alheia. Para os cristãos, os pobres não são uma categoria social, mas a própria carne de Cristo. O cuidado espiritual a eles deve ser prioritário, e a religião não pode ser apenas privada, desconsiderando problemas sociais e necessidades concretas.
A esmola, embora muitas vezes desprezada, permanece um gesto vital de contato e encontro com o outro, lembrando que o trabalho humano é participação na criação. Provérbios afirma: “O homem de olhar generoso será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre” (Pr 22, 9), e Jesus ensina: “Vendei os vossos bens e dai-os de esmola. Arranjai bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável no Céu” (Lc 12, 33). São João Crisóstomo dizia que a esmola é “a asa da oração”, e São Gregório de Nazianzo concluiu que devemos visitar, alimentar, vestir, acolher e honrar Cristo nos pobres, pois “o Senhor quer misericórdia e não sacrifício”.
O amor cristão supera barreiras, aproxima distantes, une estranhos e atravessa abismos. Quer pelo trabalho, pela transformação das estruturas injustas ou pelo gesto de ajuda, o pobre deve sentir que Jesus lhe diz: “Eu te amei” (Ap 3, 9). Este amor é profético, realizador de milagres e sem limites — é a própria maneira de viver a vida cristã, fazendo do encontro com os pobres uma experiência transformadora e um chamado constante à solidariedade, justiça e compaixão.