Roteiro de formação para agentes de PCr elaborado a partir do documento “Dilexi te” – Exortação Apostólica do Papa Leão XIV

 Em Igreja em Saída, Notícias

Pe. Valdir João Silveira

“Eis que farei vir alguns dos que se dizem da sinagoga de Satanás… eles virão prostrar-se a teus pés e reconhecer que eu te amei.” (Ap 3,9)

Esta palavra do Apocalipse é dirigida a uma comunidade pequena, frágil, sem poder, exposta à violência e ao desprezo. É a esta comunidade que Cristo diz: “Eu te amei”. O Papa Leão XIV, em continuidade com o magistério do Papa Francisco, escolhe essa expressão como eixo de sua Exortação, porque ela revela o modo como Deus olha aqueles que o mundo descarta. Trata-se de um amor que não nasce da força, do mérito ou da reputação, mas da vulnerabilidade.

Na sociedade atual, poucas realidades encarnam tão claramente essa condição de “pouca força” quanto a pessoa encarcerada. A prisão reúne pessoas marcadas pela exclusão social, pela pobreza estrutural, por trajetórias atravessadas pela violência sofrida e, muitas vezes, também cometida. Por isso, a palavra “Eu te amei” ecoa de modo singular dentro das cadeias. Ela não é uma abstração espiritual, mas um anúncio concreto dirigido a quem foi esquecido. O Evangelho confirma essa centralidade quando Jesus afirma: “Eu estava preso e fostes visitar-me” (Mt 25,36), e a Carta aos Hebreus exorta: “Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles” (Hb 13,3).

Toda esta formação se organiza a partir de três eixos inseparáveis:a) quem é a pessoa presa à luz do “Eu te amei”;
b) por que a visita ao cárcere não é opcional, mas constitutiva da fé cristã;
c) e como deve ser o acompanhamento pastoral, para que não se reduza a gestos isolados, mas se torne caminho de comunhão, libertação e esperança.

À luz do “Eu te amei”, a pessoa presa deve ser reconhecida, antes de tudo, como irmão amado e sacramento de Cristo. Jesus não apenas se solidariza com os últimos da sociedade; Ele se identifica com eles. A Exortação afirma de modo incisivo que Cristo se identifica “com os últimos da sociedade” (n. 2) e que, no rosto ferido dos pobres, encontramos impresso o próprio sofrimento de Cristo (n. 9). Essa afirmação está em plena continuidade com a Escritura, que apresenta o Servo sofredor desprezado e rejeitado: “Era desprezado, o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, experimentado no sofrimento; diante dele cobriam o rosto, era desprezado, e não fizemos caso dele” (Is 53,3-4), o grito: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Por que estás longe do meu grito e das palavras do meu gemido?” do Salmo 22,2, e a certeza de que Cristo foi provado em tudo, exceto no pecado (Hb 4,15). Olhar para a pessoa encarcerada com fé é reconhecer ali o Cristo ferido pela história.

Nesse horizonte, até os menores gestos adquirem um peso eterno. O Evangelho de Mateus recorda que o gesto silencioso da mulher que unge Jesus não será jamais esquecido: “Em qualquer parte do mundo onde este Evangelho for anunciado, será contado também o que ela fez” (Mt 26,13). Do mesmo modo, nenhum gesto de cuidado, escuta ou presença junto à pessoa presa se perde. Tudo fica inscrito na memória de Deus.

O “Eu te amei” também revela a dignidade intocável da pessoa humana. O amor de Cristo manifesta a dignidade de cada ser humano, sobretudo quando ele se encontra mais fraco, mísero e sofredor (Exortação, n. 2). Essa dignidade não é concedida pelo sistema penal nem retirada pela condenação. Ela nasce do fato de todo ser humano ter sido criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27), chamado à incorruptibilidade (Sb 2,23) e incorporado a um único corpo em Cristo (1Cor 12,12-27).

A Tradição da Igreja é clara e contundente nesse ponto. São João Crisóstomo adverte: “Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vês nu nos pobres”. Para o grande padre da Igreja, não existe separação entre o Corpo eucarístico e o corpo ferido do pobre. O preso, tantas vezes despojado de sua dignidade, exposto à humilhação e ao abandono, é membro do Corpo de Cristo que clama por cuidado, respeito e presença.

Outro ponto decisivo da Exortação é a afirmação de que os pobres não são apenas destinatários da ação pastoral, mas sujeitos da própria história. Citando o Documento de Aparecida, o texto recorda que “os pobres se fazem sujeitos da evangelização” (DAp 393; Exortação, n. 100). Isso transforma profundamente a Pastoral Carcerária. Não se vai ao cárcere apenas para levar algo, mas para caminhar com, para escutar, para aprender. Deus escolhe o que é fraco para confundir o que é forte (1Cor 1,27-29), revela-se aos pequenos (Mt 11,25) e escuta o clamor do humilde (Sl 34,7). Quantas vezes os agentes saem da prisão mais evangelizados do que entraram, tocados por testemunhos de arrependimento, resistência, fé silenciosa e humanidade persistente.

A visita ao cárcere, nesse contexto, não é um gesto opcional nem uma obra de piedade secundária. Ela pertence ao coração do Evangelho. No discurso do Juízo Final, Jesus não pergunta pela ortodoxia da fé, mas pelo cuidado concreto com os famintos, os doentes e os presos (Mt 25,31-46). A Exortação afirma que o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história (n. 5). A prisão é o lugar do não-poder por excelência. Ao atravessar seus portões, o agente não vai como quem leva respostas prontas, mas como quem busca um encontro. A visita torna-se verdadeira peregrinação ao sofrimento de Cristo.

Num mundo marcado pela indiferença, a visita ao preso é também um ato profético. A Exortação alerta para o risco de o sofrimento dos pobres se tornar irrelevante, tratado como notícia secundária (n. 11). O Papa Francisco nomeia essa lógica como “cultura do descarte” (Evangelii Gaudium, 53). A sociedade prefere esquecer seus encarcerados. Visitar é romper com esse esquecimento, é recusar passar adiante como o sacerdote e o levita da parábola do Bom Samaritano (Lc 10,31-37). É dar voz a quem foi silenciado, como pede a sabedoria bíblica: “Abre a boca em favor do mudo” (Pr 31,8-9).

A visita também é resposta ao clamor. Deus diz a Moisés: “Eu vi a aflição do meu povo… ouvi o seu clamor… desci para libertá-lo… agora vai, eu te envio” (Ex 3,7-10). O cárcere está cheio de clamores silenciosos: o clamor da saudade, da injustiça, da culpa, da desesperança. A Pastoral Carcerária é Igreja enviada a ouvir (cf. DAp 399). Muitas vezes, a simples presença já é resposta.

O acompanhamento pastoral, iluminado pelo “Eu te amei”, não pode ser fragmentado. Ele deve ser integral, alcançando espírito, mente e corpo. A Exortação afirma que a pior discriminação sofrida pelos pobres é a falta de cuidado espiritual (n. 114). Por isso, a opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se numa solicitude religiosa privilegiada. Levar a Eucaristia, celebrar a Palavra, oferecer a Reconciliação, escutar as angústias da alma é fundamental. Mesmo atrás das grades, o Reino de Deus pertence aos pobres (Lc 6,20). A Igreja existe para anunciar essa esperança (cf. Evangelii Gaudium, 200; Gaudium et Spes, 1).

O cuidado integral inclui também o cuidado intelectual e cultural. A Exortação recorda a tradição da Igreja na educação dos pobres e fala da necessidade de formar o coração, ensinar a pensar e fazer florescer a dignidade (n. 71). A Escritura lembra que a sabedoria é o principal bem (Pr 4,7) e que a falta de conhecimento leva à destruição (Os 4,6). Santo Agostinho, em De Doctrina Christiana, insiste que educar é ato de amor. Na prisão, isso se concretiza no incentivo à leitura, à alfabetização, à formação profissional e humana.

Há ainda o cuidado material e jurídico. Inspirada no gesto concreto do Bom Samaritano (Lc 10,34), a Pastoral Carcerária é chamada a estar atenta às necessidades reais e à defesa dos direitos das pessoas presas, sempre que possível. A Escritura é clara ao afirmar que o verdadeiro jejum consiste em soltar as correntes da injustiça (Is 58,6-7) e que fé sem obras é morta (Tg 2,14-17). As Diretrizes da CNBB para a Pastoral Carcerária reforçam esse compromisso.

O estilo do acompanhamento é tão importante quanto suas ações. A Exortação insiste na proximidade real e cordial. Não se trata de uma presença distante ou funcional, mas de amizade. O Papa Francisco afirma que entrar numa penitenciária é um momento de grande humanidade (Exortação, n. 62). Jesus chama seus discípulos de amigos (Jo 15,15) e Paulo convida a chorar com os que choram (Rm 12,15).

Esse acompanhamento exige também contemplação. O amor autêntico é sempre contemplativo, afirma a Exortação (n. 101). Trata-se de aprender a ver a bondade e a beleza que ainda habitam o outro, mesmo quando desfiguradas pelo pecado e pelo sistema. Deus ama tudo o que criou (Sb 11,24) e nos amou primeiro (1Jo 4,10).

A gratuidade é outro traço essencial. Jesus ensina: “Quando deres um banquete, convida os pobres… e serás feliz” (Lc 14,13-14). Não se busca retorno, reconhecimento ou resultados mensuráveis. São Gregório Magno lembra, na Regra Pastoral, que o verdadeiro serviço nasce do amor gratuito.

Por fim, a Pastoral Carcerária é chamada a ser voz profética. A Exortação fala das estruturas de pecado (n. 90) e convida a denunciá-las. Muitas prisões se tornaram estruturas que desumanizam e não recuperam. A Escritura denuncia leis injustas (Is 10,1-2), exige justiça e misericórdia (Mq 6,8) e condena a exploração dos pobres (Am 8,4-6). O magistério social da Igreja reforça essa denúncia (Sollicitudo Rei Socialis, 36; Fratelli Tutti, 69-71).

A formação culmina no envio. “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10,37). Cada visita ao cárcere é resposta concreta ao duplo mandamento do amor (Mt 22,37-40). A pessoa presa não é um número, nem um caso, nem um problema. É um irmão, uma irmã, no qual Cristo escolheu manifestar-se de modo particular. A cada agente que atravessa os portões da prisão com amor, ressoa novamente a palavra de Cristo: “Eu te amei” (Ap 3,9).

Essa certeza sustenta a oração da Igreja pelos encarcerados, inspirada no olhar misericordioso de Jesus para o bom ladrão (Lc 23,39-43), na confiança do Salmo 102 e na convicção de que nada pode nos separar do amor de Deus (Rm 8,38-39). Sob a intercessão de São Dimas, de São Leonardo de Noblac e de Nossa Senhora das Mercês, a Pastoral Carcerária caminha como sinal de esperança, liberdade e vida nova.

PERGUNTAS PARA ESTUDO E REFLEXÃO:

  1. Como o anúncio “Eu te amei” (Ap 3,9) transforma meu olhar sobre a pessoa encarcerada e sobre minha própria missão como agente da Pastoral Carcerária?
  2. De que maneira minha visita e meu acompanhamento expressam uma fé que se traduz em cuidado concreto, e não apenas em palavras religiosas?
  3. Que conversões pessoais e pastorais este texto me chama a assumir diante das estruturas que produzem exclusão, violência e encarceramento?
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