JUSTIÇA RESTAURATIVA QUE TRANSFORMA: FORMAÇÃO ES.PE.REREÚNE HISTÓRIAS, ESCUTA E NOVOS CAMINHOS EM SOROCABA

Entre os dias 06 e 16 de agosto de 2026, no Centro de Eventos São José, em
Sorocaba/SP, aconteceu o Curso Fundamentos da Justiça Restaurativa –
ES.PE.RE. (Escola do Perdão e Reconciliação)
, um encontro marcado não
apenas pela aprendizagem de conteúdos, mas, sobretudo, por experiências
capazes de tocar histórias, rever certezas e abrir novos caminhos.

Participaram da formação familiares de pessoas privadas de liberdade, egressos
do sistema prisional, agentes da Pastoral Carcerária, padres e colaboradores da
Pastoral Carcerária. Pessoas com trajetórias diferentes, dores diferentes,
conhecimentos diferentes e também diferentes maneiras de enxergar a vida.
Durante esses dias, porém, todas foram convidadas a ocupar o mesmo espaço
de humanidade: aquele no qual ninguém é reduzido ao que fez, ao que sofreu
ou ao lugar de onde veio.

O curso foi facilitado por Joanne Blaney e Vera Dalzotto, com a colaboração e
o apoio de Geralda Ávila e Érika Silva. Ao longo da formação, foram
trabalhados fundamentos da Justiça Restaurativa, perdão e reconciliação,
comunicação não violenta, escuta, responsabilidade, empatia, necessidades
humanas, relações, conflitos, construção da paz e processos de restauração
pessoal e comunitária.

Mais do que apresentar conceitos, a proposta possibilitou vivências.

Por meio das dinâmicas, dos círculos, das partilhas, do silêncio, da escuta e dos
trabalhos construídos com as próprias mãos, cada participante foi sendo
convidado a olhar para a sua história. E talvez uma das maiores descobertas
tenha sido compreender que não existe processo restaurativo verdadeiro que
não passe, de alguma maneira, pelo encontro consigo mesmo.

Muitas pessoas destacaram uma verdadeira mudança de paradigmas em
relação às suas próprias verdades. Aquilo que, por muito tempo, parecia
definitivo começou a ser questionado. Surgiu a percepção de que nossas
experiências influenciam profundamente a forma como interpretamos pessoas,
situações e conflitos.

E uma compreensão importante atravessou a formação:
ninguém contém sozinho a verdade absoluta.

Cada pessoa vê uma parte da realidade a partir de sua própria história, de suas
dores, experiências, medos, valores e esperanças. Quando compreendemos
isso, deixamos de entrar em uma conversa apenas para provar que estamos

certos e começamos a entrar nela também para compreender o que o outro está
tentando nos dizer.

Nesse caminho, a Comunicação Não Violenta mostrou-se uma ferramenta
essencial. Aprender a observar sem imediatamente julgar, reconhecer
sentimentos, identificar necessidades e fazer pedidos claros pode transformar
profundamente as relações.

Quantos conflitos poderiam ser evitados se aprendêssemos a falar sem ferir?


Quantas rupturas familiares poderiam encontrar outro caminho se houvesse
espaço para uma palavra respeitosa?


Quantas violências poderiam ser interrompidas se, antes da reação, existisse
escuta?

A comunicação pode construir pontes, mas também pode levantar muros. Pode
aproximar ou afastar. Pode pacificar ou alimentar conflitos que, quando
ampliados para comunidades e povos, chegam até mesmo às guerras. Por isso,
aprender a comunicar-se de maneira não violenta é também aprender uma
cultura de paz.

Outro aprendizado profundamente destacado foi o valor da escuta.

Escutar não é apenas permanecer em silêncio enquanto alguém fala. Escutar é
oferecer presença. É tentar compreender antes de responder. É não preparar
uma defesa enquanto o outro ainda revela sua dor. É perceber que, diante de
um mesmo fato, podem existir sentimentos, necessidades e interpretações
completamente diferentes.

Em muitos momentos, não temos como mudar aquilo que aconteceu. Mas
podemos transformar a maneira como acolhemos o que aconteceu e a forma
como caminharemos a partir dali.

Foi assim que muitos participantes começaram a se reconhecer como pessoas
iniciando um processo de restauração consigo mesmas.

Restauração que não significa apagar o passado.

Perdoar não é esquecer.

Reconciliação não significa negar a dor.

Justiça Restaurativa não significa retirar responsabilidades.

Ao contrário: significa olhar para aquilo que aconteceu com coragem suficiente
para perguntar: Quem foi ferido? Quais necessidades foram afetadas?
Quem precisa assumir responsabilidades? O que pode ser feito para
reparar aquilo que ainda pode ser reparado? E que relações precisam ser
reconstruídas — inclusive a relação da pessoa consigo mesma?

Durante esses dias em Sorocaba, houve espaço para lágrimas e sorrisos, para
silêncio e palavra, para barro, símbolos, círculos, abraços, mãos estendidas e
histórias compartilhadas.

Cada construção realizada, cada fala e cada gesto carregavam um pouco da
história de quem estava ali.

Ao final, talvez ninguém tenha saído exatamente como chegou.

Porque, quando uma pessoa começa a compreender que pode olhar para sua
própria história sem permanecer aprisionada nela, algo novo começa.

Quando descobre que pode ouvir uma verdade diferente da sua sem sentir que
precisa destruir a outra pessoa, algo novo começa.

Quando percebe que responsabilização e humanidade podem caminhar juntas,
algo novo começa.E, quando entende que a paz que desejamos para o mundo também precisa
encontrar espaço dentro de nós, a Justiça Restaurativa deixa de ser apenas um
conteúdo estudado e começa a tornar-se uma maneira diferente de estar diante
da vida.

O ES.PE.RE. vivido em Sorocaba deixou sementes.

Sementes de perdão, reconciliação, escuta, responsabilidade, respeito,
esperança e paz.

Agora, cada participante retorna à sua família, comunidade, Pastoral e missão
levando consigo não respostas prontas, mas novas perguntas, novos olhares e
a certeza de que restaurar relações é um caminho construído todos os dias.

Porque restaurar não é voltar a ser como antes.

É permitir que, depois de tudo o que vivemos, possamos escolher
conscientemente quem queremos ser daqui para frente.