CADEIRANTES E PARAPLÉGICOS PRESOS

“Fazei justiça ao fraco e ao órfão; defendei o pobre e o necessitado.”
Salmo 82,3


No dia 24 de junho de 2026, como padre que realiza visitas pastorais às pessoas privadas de liberdade,
estive em um centro hospitalar prisional, junto com a agente da Pastoral Carcerária, senhora Sônia.
Saí de lá com uma pergunta atravessada no peito: quantas pessoas já foram condenadas muito antes de
chegarem à prisão?


O que mais me chamou a atenção foi o número de homens cadeirantes e paraplégicos naquela unidade. Não
tenho estatísticas daquela unidade específica; por honestidade, não posso transformar minha percepção em
dado local oficial. Mas posso falar dos rostos que vi, das histórias que escutei e das feridas que estavam
diante de mim. Muitos ficaram nessa condição em confrontos: alguns com a polícia, outros com vítimas ou
em situações ligadas ao crime.


Os dados oficiais ajudam a perceber que essa realidade não é isolada. Segundo o SISDEPEN, da Secretaria
Nacional de Políticas Penais — SENAPPEN, vinculada ao Ministério da Justiça, no 2o semestre de 2025
havia, no Brasil, 8.501 pessoas presas com algum tipo de deficiência em celas físicas. Entre elas, 3.632
eram pessoas com deficiência física e 546 eram cadeirantes, sendo 534 homens e 12 mulheres. O sistema
não informa quantos são paraplégicos. Ainda assim, os números já denunciam o suficiente: há homens e
mulheres presos, feridos no corpo e muitas vezes abandonados também pela família, pela sociedade e pela
própria comunidade de fé.


Nas visitas pastorais, costumo perguntar sobre a família. Pergunto pelo pai, pela mãe, pelos irmãos, pelos
filhos, pelas visitas. E um fato me marcou: entre os cadeirantes e paraplégicos com quem conversei, nenhum
recebia visita de pai e mãe. Mais ainda: muitos nem sequer foram criados com pai e mãe. A maioria cresceu
somente com a mãe; outros foram praticamente abandonados.


Entre eles, encontrei um jovem de 20 anos, paraplégico, a quem o médico disse que nunca mais sairá da
cama. Ele me contou que já morava sozinho havia anos. Não conheceu o pai. Foi abandonado pela mãe
ainda criança. Teve que sobreviver como pôde.


Nessa visita, uma angústia antiga voltou com mais força. Não era uma dor nova. Era a mesma dor que me
acompanha desde os primeiros passos na Pastoral Carcerária: perceber que muitos chegam à prisão depois
de já terem sido abandonados pela família, pela sociedade e, muitas vezes, também por nós, que deveríamos
ter sido presença de cuidado, escuta e misericórdia. Diante daquele jovem paraplégico, essa dor deixou de
ser reflexão e se tornou carne ferida diante dos meus olhos.


Quando perguntei sobre a formação escolar, a resposta , confesso que não me surpreendeu. Nenhum
daqueles homens tinha curso superior. Muitos não passaram da oitava série. Alguns nem chegaram a
completar o ensino médio. A sociedade costuma enxergar somente o adulto preso. Mas antes dele houve
uma criança sem proteção, um adolescente sem referência, um jovem sem escola, sem escuta, sem trabalho
e sem alguém que lhe ajudasse a construir um caminho. Para muitos, o futuro não foi perdido de uma vez;
foi sendo arrancado aos poucos, na soma dos abandonos, das portas fechadas, das oportunidades negadas e
das ausências que ninguém quis assumir.

Não estou dizendo que o crime não tenha consequência. Não estou defendendo impunidade. A dor das
vítimas também é sagrada e precisa ser acolhida. Mas a fé cristã nos impede de transformar a pessoa que
errou em alguém descartável. A misericórdia não apaga a verdade do mal cometido; ela impede que a justiça
se transforme em vingança. A pessoa que feriu precisa ser chamada a reconhecer o mal, reparar o que for
possível, iniciar um caminho de conversão e reencontrar sua dignidade diante de Deus, das vítimas e da
sociedade.


Há uma pergunta que nós, como Igreja, precisamos fazer sem fugir: quando aquela criança pobre, ferida e
sem proteção ainda estava crescendo, nós a vimos? Ou só passamos a enxergá-la quando ela se tornou
ameaça? O amor cristão pelos pobres não é uma ideia abstrata, mas uma forma concreta de reconhecer
Cristo naqueles que foram expostos à violência, ao desprezo e à humilhação. Se não tocamos essa ferida
antes, não podemos fingir inocência depois.
Há ainda outro fato que me marcou. Em todos os grupos e raios com os quais me reuni, os presos rezaram
comigo. Rezaram juntos, com respeito, atenção e sede de Deus. Muitos pediram que eu continuasse rezando
por eles.


Não vi ali apenas homens marcados pelo crime ou pela punição. Vi pessoas que, mesmo feridas, ainda
buscavam Deus. Mesmo quando alguém parece não ter relevância, recurso, prestígio ou defesa, continua
sendo amado por Deus. A prisão pode limitar o corpo, mas não pode apagar a fome de sentido, a sede de
perdão e a possibilidade de recomeço.


Um deles pediu para se confessar em particular. Era um jovem ligado à Igreja, participante assíduo de
movimentos, alguém que já tinha caminhada de fé e direção espiritual. Mas, depois que foi preso, segundo
me contou, nem mesmo o padre que o acompanhava espiritualmente teve a caridade pastoral de visitá-lo.
Essa dor também precisa ser dita, sobretudo a nós, padres, religiosos, religiosas e agentes de pastoral.
Quando alguém cai, a Igreja não pode desaparecer da vida dessa pessoa. A prisão não suspende a graça. A
cela não cancela o Evangelho. O pecado não revoga o direito à misericórdia.


Quantos jovens são acolhidos enquanto estão “certos”, ativos, úteis, presentes nos grupos, nas pastorais e
nos movimentos, mas são esquecidos quando erram, quando caem, quando se tornam incômodos? Que tipo
de evangelização fazemos se acompanhamos a pessoa apenas enquanto ela nos alegra, mas nos afastamos
quando ela mais precisa de conversão, escuta e reconciliação?


A Igreja não pode amar apenas os pobres comportados, os feridos simpáticos, os caídos que não dão
trabalho. O Evangelho nos leva justamente aos lugares onde a dignidade humana foi coberta por vergonha,
culpa, violência e abandono. O pobre não é objeto de pena; é sujeito de dignidade. O preso não é resto
humano; é pessoa.


A confissão pedida por aquele jovem foi, para mim, um sinal. Ali não estava alguém querendo apenas
justificar sua história ou suavizar sua culpa. Estava um coração inquieto, ferido, mas ainda aberto à graça.
Como recorda Santo Agostinho, o ser humano pode fugir de Deus, pode se perder em caminhos escuros,
mas não consegue arrancar de dentro de si a sede de voltar para Aquele que o criou. Aquele jovem queria
se reconciliar com Deus. Queria ser escutado. Queria voltar a respirar por dentro. Mesmo dentro da prisão,
a consciência não morre. A fé pode continuar viva. O desejo de Deus pode resistir no fundo da alma como
brasa escondida sob as cinzas, esperando alguém que não venha condenar, mas ajudar a reacender.

Para mim, a presença pastoral nas prisões não é favor, não é visita de cortesia, não é obra secundária. É
Evangelho vivo. Jesus disse: “Eu estava preso e fostes me visitar.” Ele não disse: “Eu estava preso e
perguntastes primeiro se eu merecia visita”. A visita acontece porque a pessoa presa continua sendo filha
de Deus, continua tendo alma, história, culpa, dor, possibilidade de conversão e direito à misericórdia.


Jesus nunca tratou o pecador como alguém descartável. Ele confrontou o pecado, sim, mas sempre buscou
salvar a pessoa. Diante da mulher que seria apedrejada, não negou a gravidade do erro, mas interrompeu a
lógica da execução moral. Ao ladrão crucificado, não entregou desprezo; entregou esperança. O Filho veio
para servir e salvar, não para dominar e condenar. Esta é a medida do nosso ministério.


O Magistério da Igreja é claro: a dignidade humana não desaparece, nem mesmo depois de crimes graves.
A pessoa pode perder a liberdade, mas não perde sua dignidade. Pode cumprir pena, mas não pode ser
reduzida ao crime cometido. Pode ser responsabilizada, mas não deve ser odiada, humilhada ou
abandonada.


A pergunta que fica é: queremos justiça ou vingança?
Justiça responsabiliza e reconstrói. Vingança descarta e comemora a destruição do outro. Justiça protege a
sociedade, ampara a vítima e exige mudança de quem errou. Vingança só deseja que o outro desapareça.
Como padre, não posso olhar para essa realidade com frieza. Minha fé não me permite. A Palavra de Deus
me obriga a enxergar ali não apenas presos, mas filhos de Deus. Feridos, culpados, marcados, sim; mas
ainda filhos. E, se são filhos, não podem ser tratados como resto.


Minha angústia nasce daí: muitos foram abandonados quando crianças, empurrados para a sobrevivência,
rejeitados pela família e esquecidos pela sociedade. Depois, quando adultos, são punidos pela lei e
novamente abandonados pela mesma sociedade que nunca os protegeu. E muitos, depois de presos, também
são abandonados pela própria comunidade de fé.


Isso não é apenas um problema jurídico. É uma ferida moral, social, espiritual e pastoral.
A fé cristã nos chama a algo mais exigente: defender a vida sem escolher qual vida merece compaixão.
Chorar com as vítimas, sim. Responsabilizar quem cometeu crimes, sim. Mas também perguntar pelas
causas: infâncias destruídas, famílias quebradas, escolas ausentes, periferias feridas, comunidades
religiosas que abandonam seus filhos quando eles caem e prisões que aprofundam o abandono.
Uma sociedade que abandona suas crianças não pode se declarar inocente diante dos adultos que depois ela
prende.


E uma Igreja que visita os fortes, mas esquece os caídos, precisa voltar correndo ao Evangelho, antes que
o Evangelho nos cobre aquilo que deixamos de fazer: “Eu estava preso e fostes me visitar.”
Pe. Valdir João Silveira
Agente da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de São Paulo — SP