Setembro: mês da Prevenção ao Suicídio — Se precisar, peça ajuda!

Zenir Gelsleichter

GT Saúde Pastoral Carcerária Nacional

O mês de setembro traz a Campanha Mundial de Prevenção ao Suicídio, neste ano com o tema “Se precisar, peça ajuda!”. 


Considerando que mais de 720 mil pessoas em todo o mundo morrem por suicídio a cada ano, trata-se de um grave problema de saúde pública, que causa dor, luto e sofrimento aos familiares e amigos, além de provocar impactos em toda a sociedade.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o suicídio como uma das principais causas de morte entre os jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) mostram que o suicídio é a segunda causa de morte na faixa etária dos 15 aos 19 anos e a quarta principal dos 20 aos 29 anos. A média geral de mortes por essa causa no Brasil chega a aproximadamente 38 pessoas por dia.

Diante desses dados, observa-se que o atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e nos demais serviços de saúde tem sido fundamental, uma vez que a precarização e a falta de Unidades de Saúde criam uma grande lacuna entre os serviços oferecidos e a demanda de pessoas em sofrimento mental. Entretanto, os municípios precisam reorganizar as equipes e ampliar os espaços de atendimento nos CAPS, garantindo uma Política Pública de Saúde Mental que assegure Unidades e Equipes Técnicas qualificadas e compatíveis com o número de habitantes de cada município. É necessário garantir que as pessoas tenham acesso à saúde mental sem enfrentar longas esperas para receber atendimento.

Possibilitar espaços de escuta e inclusão, o diálogo na família, no ambiente escolar e no trabalho pode contribuir para a identificação de situações de sofrimento e para a prevenção do suicídio. É preciso desconstruir o medo e o tabu que envolvem falar desse tipo de morte. Falar sobre o sofrimento, acolher e escutar pode ser um importante caminho para que uma pessoa perceba que não está sozinha.

Outro fator fundamental é capacitar e formar comunidades, educadores e lideranças sociais para poderem perceber sinais nas pessoas que sofrem, para saberem agir diante de falas e comportamentos que demonstram que algo não está bem com sua saúde mental.

De acordo com o Guia de Prevenção ao Suicídio da OMS: “apesar da complexidade de sua determinação, o suicídio pode ser prevenido por meio de intervenções individuais e coletivas, que envolvam diagnóstico, atenção, tratamento e prevenção dos transtornos mentais, ações de conscientização, promoção de apoio socioemocional e limitação do acesso aos meios utilizados para o suicídio”.

Ainda, alerta a ONU, que muitos atos de suicídio acontecem enquanto ocorrem os momentos agudos de crise; um número considerável de tentativas são realizadas menos de uma hora após a decisão, às vezes minutos depois. A restrição do acesso a pesticidas de alta periculosidade e  armas de fogo poderia evitar mais de 120 mil mortes por suicídio na América em um período de 10 anos.

De acordo com estudo que contou com a participação da  Organização Pan-Americana da Saúde  (OPAS) e do Centro de Dependência e Saúde Mental do Canadá, se as restrições ao acesso a armas de fogo ou pesticidas fossem aplicadas em países onde elas respondem por 40% ou mais dos suicídios, a taxa de mortalidade poderia ser reduzida em mais de 20% entre homens e 11% entre mulheres até 2030. Nos países de “El Salvador, Guiana, Nicarágua e Suriname, onde a ingestão de pesticidas altamente perigosos levou a 40% ou mais dos suicídios em cada país em 2019, medidas proativas de restrição podem reduzir substancialmente as taxas de suicídio até 2030”. Nos Estados Unidos, as armas de fogo foram responsáveis por mais de 40% das mortes por suicídio no mesmo ano.

O cuidado com quem fica

Há também a necessidade de acompanhar as pessoas que perderam entes queridos por suicídio. Criar grupos de apoio para aqueles que estão passando por esse luto, considerando o impacto que essa perda provoca em suas vidas.

São danos profundos, que podem abrir crateras difíceis de ultrapassar. É essencial possibilitar à família falar sobre sua dor, para que assim não adoeça diante da impotência, da culpa e do silêncio. As rodas de conversa podem ser espaços de acolhimento e escuta, permitindo que brotem as lágrimas sufocadas, que se quebre o silêncio e que possam ser expressas as angústias, a saudade, a culpa e a dor.

Um lugar onde as mãos se entrelaçam e as pessoas se ajudam, apoiam-se e se fortalecem. Isso é importante porque ainda existe, na sociedade, uma forte carga de estigma sobre as pessoas que morrem por suicídio e também sobre seus familiares.

Por isso, é preciso  compreender que ninguém deve ser julgado pela forma como perdeu a vida ou pela dor que permanece naqueles que ficam. Se for preciso, busque atendimento e ajuda de um profissional da saúde. Pedir ajuda é um ato de cuidado e de coragem.

O suicídio no sistema prisional
Em 2025, foram registradas 202 mortes por suicídio no sistema carcerário brasileiro, correspondendo a 6,088% das mortes registradas no sistema prisional, conforme os dados do último relatório do SENAPPEN (2025).

A realidade das prisões brasileiras é marcada por celas insalubres, superlotação, violências às quais as pessoas privadas de liberdade estão submetidas, falta ou inadequação de alimentos e água, equipes técnicas de saúde mental insuficientes e demora no atendimento. Essas condições contribuem para o adoecimento e podem aprofundar situações de sofrimento psíquico. Diante de tantos flagelos aos quais estão submetidos, a mãe presa sofre especialmente, não podendo prover e acompanhar a vida de seus filhos, aumentando os fatores de risco potenciais para desistir de viver.

Quando uma pessoa está sob custódia do Estado, este é responsável por garantir sua vida, sua integridade e seus direitos. Por isso, a negligência diante das condições de encarceramento e da saúde mental da população prisional não pode ser naturalizada. O cárcere não pode ser um lugar de adoecimento, abandono e morte.

A prevenção do suicídio no sistema prisional exige políticas públicas de saúde mental, equipes qualificadas e suficientes, atendimento humanizado, espaços de escuta, acompanhamento psicológico e psiquiátrico quando necessário, além de condições dignas de cumprimento da pena. A pessoa presa é sujeito de direitos, cuja vida continua tendo valor e dignidade.

Quando a dor também chega à família

O suicídio que acontece no cárcere provoca sofrimento não somente para a pessoa privada de liberdade, mas também para seus familiares. Muitas vezes, esses familiares vivenciam uma dor ainda maior porque carregam dois estigmas: o primeiro, por terem um familiar preso, associado à ideia de que essa pessoa cometeu um delito; o segundo, pela forma como ocorreu sua morte.

A morte de uma pessoa presa por suicídio não provoca a mesma comoção social que a morte de uma pessoa na mesma condição em liberdade. Além disso, existe o pensamento de que, por cometer um crime, aquela pessoa “procurou” aquilo que lhe aconteceu. Essa indiferença social ensurdece ainda mais a dor e o luto dos familiares.

Para essas famílias, falar sobre o suicídio pode ser extremamente difícil. Muitas vezes, elas não encontram espaço para expressar sua dor, buscar ajuda ou participar de grupos de apoio. O estigma, a vergonha, a culpa e o medo do julgamento podem fazer com que o sofrimento seja vivido em silêncio.

É preciso romper esse silêncio.

Neste setembro de Prevenção ao Suicídio, que a palavra “Se precisar, peça ajuda!” possa chegar também aos lugares onde quase ninguém olha: às prisões, às famílias que sofrem, aos profissionais que cuidam, às comunidades que não acessam políticas públicas, às pessoas que perderam o sentido e que, silenciosamente, enfrentam suas dores.

Se precisar, peça ajuda. E, se alguém de você precisar , acolha, escute,  e, se necessário, encaminhe e acompanhe a espaços de saúde.

Referências:

https://zerosuicide.edc.org/toolkit/engage/lethal-means-safety.

https://www.setembroamarelo.com/https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/biblioteca/boletim-epidemiologico-no-55-panorama-dos-suicidios-e-lesoes/

https://www.who.int/news/item/11-12-2025-new-resource-on-setting-up-a-suicide-bereavement-support-group

https://zerosuicide.edc.org/toolkit/engage/lethal-means-safety

https://news.un.org/pt/story/2024/07/1834786