No dia 19 de junho de 2026, a Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Vitória (ES) iniciou o projeto Círculos de Construção de Paz (CCPAZ) na Penitenciária Estadual de Vila Velha VI (PEVV VI), localizada no Complexo Penitenciário do Xuri. A iniciativa, fundamentada nos princípios da Justiça Restaurativa, busca promover espaços de escuta, diálogo, acolhimento e fortalecimento da dignidade humana entre as pessoas privadas de liberdade.
Atualmente, 31 homens privados de liberdade participam do projeto. Ao longo dos quatro primeiros encontros realizados na unidade prisional, os participantes vivenciaram momentos profundos de partilha, escuta ativa e construção coletiva de confiança, em um ambiente seguro e respeitoso.
O trabalho é conduzido pelos facilitadores Nely Varanda, Ricardo Ozório, Irmã Amelzia e Patrícia dos Anjos, agentes da Pastoral Carcerária que receberam formação específica promovida pela Pastoral Carcerária Nacional em Justiça Restaurativa e facilitação de Círculos de Construção de Paz. Para a equipe, essa formação representa muito mais do que uma capacitação técnica: é um chamado para uma missão de restauração da dignidade humana por meio da escuta acolhedora, da empatia e do cuidado com o outro.
Essa experiência tem demonstrado que, muitas vezes, aquilo que parece simples — oferecer tempo para ouvir, acolher e permitir que alguém fale sem ser julgado — pode representar uma profunda transformação para quem vive o cárcere.
Um dos participantes resumiu o significado dos encontros ao afirmar:
“Nesse círculo, eu tenho o direito de falar, de receber um abraço, de chorar, de falar de mim, pois dentro da cela não podemos.”
Os próprios facilitadores também testemunham o impacto dessa experiência em suas vidas.
Para Nely Varanda, a condução dos círculos revela a força da confiança construída ao longo dos encontros:
“Hoje foi um dia de grandes emoções. Conseguimos algo muito profundo para um terceiro encontro do círculo: aqueles irmãos abriram seus corações porque encontraram em nós confiança e um olhar misericordioso, de quem não julga, apenas acolhe.”
Patrícia dos Anjos destaca que a missão vai além da metodologia:
“Ser agente da Pastoral Carcerária e facilitadora dos Círculos de Paz é uma dádiva de Deus em minha vida. Neste quarto encontro, perceber o despertar da fala, o direito do irmão privado de liberdade de ser escutado sem julgamento e de encontrar um olhar que acolhe é experimentar o acalento de Deus Pai e Mãe na vida deles.”
Já Ricardo Ozório compartilha que essa caminhada também transforma quem facilita os encontros:
“Estou muito feliz. A cada dia cresço na fé e na paz interior, nesta Pastoral que nos acolheu e que nos aproxima do Cristo Ressuscitado, presente no rosto dos nossos irmãos aprisionados.”
Ser facilitador dos Círculos de Construção de Paz é viver um profundo processo de transformação pessoal. Mais do que conduzir uma metodologia, trata-se de sustentar um espaço de cura, diálogo e conexão humana, onde o protagonismo pertence à escuta e ao respeito pela história de cada pessoa.
No centro de cada círculo permanece um sentimento comum: a esperança. A esperança de que, onde o sistema frequentemente pune e silencia, a palavra, a escuta ativa e o acolhimento possam restaurar relações, fortalecer a dignidade humana e transformar não apenas aqueles que participam dos encontros, mas também todos os que se colocam a serviço dessa missão.


