Jesus falando à comunidade de Mateus, formada de cristãos vindos do mundo judaico, afirma que o principal mandamento é: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento, e o segundo, semelhante a este é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. [Mt 22, 37.39]
Esta ação de Deus ganha agora a sua forma dramática devido ao facto de que, em Jesus Cristo, o próprio Deus vai atrás da « ovelha perdida », a humanidade sofredora e transviada. Quando Jesus fala, nas suas parábolas, do pastor que vai atrás da ovelha perdida, da mulher que procura a dracma, do pai que sai ao encontro do filho pródigo e o abraça, não se trata apenas de palavras, mas constituem a explicação do seu próprio ser e agir. Na sua morte de cruz, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra Si próprio, com o qual Ele Se entrega para levantar o homem e salvá-lo — o amor na sua forma mais radical. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e amar.
Jesus deu a este ato de oferta uma presença duradoura através da instituição da Eucaristia durante a Última Ceia. Antecipa a sua morte e ressurreição entregando-Se já naquela hora aos seus discípulos, no pão e no vinho, a Si próprio, ao seu corpo e sangue como novo maná (cf. Jo 6, 31-33). Se o mundo antigo tinha sonhado que, no fundo, o verdadeiro alimento do homem — aquilo de que este vive enquanto homem — era o Logos, a sabedoria eterna, agora este Logos tornou-Se verdadeiramente alimento para nós — como amor. A Eucaristia arrasta-nos no ato oblativo de Jesus. Não é só de modo estático que recebemos o Logos encarnado, mas ficamos envolvidos na dinâmica da sua doação.
Desse modo, o amor não é mero sentimento posto entre os humanos, mas sim a própria vivência do Verbo que se faz carne e habitou entre nós, derramando a graça por meio da ação do Espírito Santo para que vivêssemos como irmãos.
A vida cristã, portanto, não é compatível com a prática da exclusão dos filhos de Deus, pelo oposto, a partir do exemplo de Jesus é que compreendemos a relevância da vida fraterna, reconhecendo todos como parte do corpo de Cristo (Rm 12,4).
Dessa forma, negar o amor a alguém é negar o próprio Cristo, que habita em nós e que nos disse: Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. [Jo 13,34]
A manifestação desse amor é muitas vezes negada as pessoas LGBTQIAPN+ e de forma particular para aquelas que se encontram no cárcere.
Em sua maioria isolados em alas do seguro, que garantem uma proteção fictícia, as pessoas privadas de liberdade LGBT+ sofrem constantes ameaças, seja de seus companheiros de cela, seja da polícia penal. As torturas no cárcere se mostram ainda mais severas em relação a eles: têm seus cabelos raspados de forma a minar sua identidade, tratamento hormonal cessado, e o mais agravante em crimes de gênero: as ameaças constantes de abusos e estupros.
O Conselho Nacional de Justiça – CNJ, publicou a Resolução nº 348/20, a qual posteriormente foi editada pela Resolução 366/21
No Brasil, temos poucos exemplos positivos relacionados a unidades prisionais que são destinadas de forma exclusiva às pessoas LGBT. No Espírito Santo, a Penitenciária de Segurança Média 2 (PSME2) no Complexo do Viana possui vagas apenas para pessoas que se identificam como LGBTQIAPN+.
No Brasil, há poucos exemplos positivos relacionados a unidades prisionais que são destinadas de forma exclusiva ao público LGBT. No Espírito Santo, a Penitenciária de Segurança Média 2 (PSME2) no Complexo do Viana possui vagas apenas para pessoas que se identificam como LGBTQIAPN+. O acolhimento pastoral nessa unidade prisional é exercido de forma exemplar pelos agentes de pastoral carcerária, que orgulhosamente erguem a bandeira do amor ao próximo, ainda que, muitas vezes tenham sofrido na pele o preconceito perpetuado pelos cristãos.
Contemplar os vulneráveis – LGBTQIAPN+, pessoas presas e sobreviventes do sistema, os/as egressos/as – que sofrem rejeição, exclusão, rotulação, julgamento, preconceito dentro da própria comunidade cristã e da Igreja, nos provoca a viver a profecia do mártir Jesus e a ter olhos e ouvidos de misericórdia, de cuidado e acolhimento redobrando para com eles. A visita religiosa no cárcere deve ser embasada no amor fraterno sob os pilares da escuta ativa e defesa da dignidade humana, defendidos pela Pastoral Carcerária.
Em primeiro de abril de 1999, durante a missa do Crisma na manhã de Quinta Feira Santa, em sua homília o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, aquele que viria a ser o Papa Francisco, ensinou:
“Que os doentes, os prisioneiros, aqueles que estão sozinhos ou sem teto, os mais pobres, possam sentir-se próximos de Jesus, que veio especialmente para eles curar, para lhes dar liberdade, para lhes anunciar a boa nova. Ao ungir o corpo ‘ultrajado e glorificado’ de seu Filho amado, Deus nosso Pai ungiu todos os nossos sofrimentos e nossas alegrias. Portanto, nossas mãos ungidas com o crisma devem ser mãos próximas ao nosso povo fiel, mãos que os façam sentir em sua carne a unção do Pai, especialmente onde essa carne – que é a nossa! – ‘tem fome e sede, está doente e ferida, está expiando seus pecados na prisão, não tem o que vestir, conhece o amargo definhamento da solidão nascida do desprezo’. Para curar essa carne, o Pai enviou seu Filho”.
Cabe aos agentes pastorais e à comunidade cristã, como um todo, compreender as necessidades que se manifestam no cárcere, especialmente aquelas vivenciadas pela população LGBT+. Somam-se aos sofrimentos, às angústias e às vulnerabilidades próprias da experiência do cárcere os desafios enfrentados por essas pessoas em sua busca por um encontro pessoal com Deus, muitas vezes marcada por experiências de exclusão, incompreensão e marginalização no próprio âmbito religioso. Nesse sentido, torna-se fundamental que a ação pastoral se desenvolva de maneira acolhedora, respeitosa e comprometida com a dignidade humana, reconhecendo a singularidade de cada pessoa e promovendo espaços nos quais a vivência da fé possa ocorrer de forma verdadeiramente inclusiva.
Nesse sentido, o acolhimento é prestado de forma exemplar pela Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+, que está presente em algumas cidades, divididos em numerosos grupos, testemunham uma fé católica centrada no próprio coração de Jesus, com amor e esperança. Significativa é também a nomeação em 2025 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB de um Bispo referencial para acompanhar a questão LGBTQIAPN+ na pessoa de Dom Arnaldo Carvalheiro Neto, Bispo de Jundiaí, sendo que a CNBB é a terceira Conferencia que assume esta missão juntamente com a da Alemanha e da Bélgica.
Com um país que possui cerca de 2,9 milhões de pessoas que se identificam como pertencentes a comunidade LGBTQIAPN+, temos a graça de Deus que nos permite amar a cada uma delas, reconhecendo a própria face do Cristo em cada ser humano que anseia pertencer a uma comunidade para expressar e viver sua fé. Em uma das suas inúmeras falas o Papa Francisco afirmou: Se alguém é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-lo? “ninguém deve marginalizar essas pessoas por isso, elas devem ser integradas à sociedade”. O problema não é ter essa tendência, não, devemos ser irmãos uns dos outros, e há este e aquele.
O Papa Leão 14 na Encíclica Magnifica Humanitas sublinhando a grandeza da pessoa humana perante as promessas da Inteligência Artificial afirma:
Depois de ter evocado as questões da responsabilidade e da gestão da IA, é necessário voltar ao cerne da questão: o que significa salvaguardar o humano. O risco não é apenas que algumas tecnologias sejam mal usadas, mas que o paradigma tecnocrático em que estamos imersos, potencializado pela revolução digital e pela IA, faça parecer justa e normal uma visão anti-humana, segundo a qual a plenitude da vida consistiria em possuir mais, em reduzir a fragilidade, eliminar o imprevisto e controlar tudo. Quando a eficiência se torna a medida do valor, o ser humano é tentado a pensar-se como um projeto a otimizar, mais do que como uma criatura chamada à relação e à comunhão.
Como as palavras de um canto bastante conhecido pelas comunidades cristãs da autoria do Padre José Weber: “prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”, a Pastoral Carcerária Nacional conclui esta mensagem para a comunidade
LGBTQIAPN+, e deixa seu carinhoso abraço com as palavras do próprio Jesus: Eu vos dou um Novo Mandamento, amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado.


