Zenir Gelsleichter
GT-Saúde Pastoral Carcerária Nacional
A missão nasce no coração da Trindade, Ela é sua origem e fonte. A Trindade é comunidade, é movimento, não é estática. Nesta dinâmica o Pai com o Filho e o Espírito cria o mundo, depois envia Seu Filho, o Espírito que pairava sobre as águas na criação (Gn 1,2) por Jesus nos é dado em Pentecostes (At 2,4). A Igreja nascente, até a plenitude dos tempos, tem como finalidade e sentido de existir ser missão de Deus-Trindade no mundo. Diante dessa designação, o que nos cabe como fiéis batizados/as, membros dessa Igreja viva? Nossa existência se entrelaça à missão da Igreja; assim, o sentido de nossas vidas se concretiza no aqui e agora, ao estarmos a serviço para a concretização do Projeto do Reino de Deus.
Nascemos para a missionariedade.
A existência do ser humano, plasmado à imagem e semelhança trinitária, encontra seu sentido na vivência da missão que o Senhor lhe confiou. Cada pessoa é a esperança e o sonho de Deus, cada pessoa é uma possibilidade com quem Deus conta, para que através de suas aptidões e dons, contribua na construção do Reino proposto por Jesus.
Este Reino foi projetado desde as origens; estava no coração de Deus desde a criação. Logo, ao romper a aliança com o Criador, o ser humano afastou-se desse projeto e do desígnio para o qual foi criado. Nesse distanciamento, ele se perdeu, e imagens distorcidas se avultaram, sufocando o reflexo divino em si.
No entanto, diz a Sagrada Escritura que “o amor de Cristo nos constrange” (2Cor 5,14), porque Deus nos dá os seus dons e não volta atrás; não retira o que nos oferece por conta de nossas faltas, rebeldias e maldades. Ele é fiel ao seu amor para com a humanidade. Como bem lembra o Papa Francisco: “Quando Deus concede um dom, este é irrevogável: não o concede hoje para o tirar amanhã. Quando Deus chama, este chamamento permanece para toda a vida” (cf. Rm 11,29).
Ser missão envolve que tudo o que somos e fazemos, não é só o fazer, ser missão é identidade, e nisto tudo o que a envolve, “a vida é missão sempre” Mosconi, (2018), isto quer dizer o lavar a louça, escutar uma pessoa, ajudar um necessitado, quando estiver realizando o autocuidado ou descansando, caminhando nas trincheiras e lutando por direitos, envolve o ser missão.
Algumas pessoas concretizam a sua vida como uma verdadeira missão, mesmo sem o compreender totalmente. Muitas delas não têm religião ou não são cristãs, mas lutam e defendem a vida e os direitos humanos muito melhor do que vários que se autointitulam cristãos. Por outro lado, há um grande número de religiosos que ainda não compreendem nem vivem a partir desse propósito, mergulhados no vazio e na indiferença.
Apesar disso, existe uma verdadeira multidão de testemunhas que interpelam o mundo. São pessoas que lutam incansavelmente para que o Projeto do Reino de Deus se concretize e para que, como diz a Escritura, “todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).
Este é um ponto crucial para refletir sobre como as pastorais compreendem a missão e como esta abrange todas as instâncias da vida humana, especialmente onde há fragilidade e sofrimento. Nesse sentido, as pastorais precisam ampliar sua ação, sua compreensão e o seu olhar. É a ‘Igreja em saída’, tão desejada pelo Papa Francisco, que nos convoca a deixar as sacristias para ir ao encontro do Senhor chagado nas prisões e nas ruas.
Participar ativamente da Pastoral Carcerária, da Pastoral do Povo da Rua, da Pastoral da Favela e da Pastoral do Menor significa compreender esses ambientes como autênticos espaços de missão. Como o próprio Senhor nos diz em Mateus (25, 35-36): ‘Tive fome e me destes de comer, estava nu e me vestistes, estive preso e fostes me visitar’. Visitar e acompanhar essas pessoas significa fortalecer suas lutas para que tenham garantidos os Direitos Humanos e o acesso às políticas públicas. É isso que possibilita uma vida com dignidade e direitos mínimos. É nesta esfera do caminho que o Evangelho clama.
O Papa Leão na Mensagem para Dia Mundial das Missões de 2026, escolheu como o tema: Um em Cristo, unidos na missão, fala que: “estar unidos na missão significa guardar e alimentar a espiritualidade de comunhão e colaboração missionária. Pois temos juntos uma única missão […] um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos. […]Encorajo, deste modo, as instituições e realidades eclesiais a fortalecer o sentido de comunhão missionária eclesial e a desenvolver com criatividade formas concretas de colaboração entre si para a missão e na missão.”
Em consonância com a palavra do Papa Leão, as pastorais são chamadas a expandir sua atuação e a fortalecer a articulação mútua. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB (2026-2032) reforçam a necessidade de a Igreja “alargar o espaço da sua tenda” (Is 54,2). É nessa caminhada, junto às vidas feridas e à luta por dignidade, que a Igreja deve se fazer presente, caminhando junto para acolher e escutar, respondendo aos clamores do Evangelho na realidade atual.


