{"id":37665,"date":"2026-03-10T13:43:52","date_gmt":"2026-03-10T16:43:52","guid":{"rendered":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=37665"},"modified":"2026-05-15T16:13:31","modified_gmt":"2026-05-15T19:13:31","slug":"artigo-fraternidade-moradia-e-a-pessoa-presa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=37665","title":{"rendered":"ARTIGO: Fraternidade, moradia e a pessoa presa"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Site-Imagem-Destacada-scaled.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Site-Imagem-Destacada-scaled.png\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1440\" \/><\/a><\/p>\n<p>Neste ano, a Campanha da Fraternidade nos convida a ver, refletir e, sobretudo, agir diante do fen\u00f4meno da falta de moradia. Trata-se de um apelo concreto \u00e0 convers\u00e3o, que n\u00e3o pode se reduzir a um simples exerc\u00edcio intelectual, mas deve provocar uma mudan\u00e7a profunda em nossa vis\u00e3o de sociedade. Somos chamados a construir uma conviv\u00eancia que acolha, que abra portas e que permita o surgimento de novas rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, superando todas as formas de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>A exclus\u00e3o social, quando naturalizada, cria novos guetos, rotula pessoas e marca suas vidas com estigmas dif\u00edceis de apagar. Alimenta-se, assim, uma esp\u00e9cie de fundamentalismo humano, religioso e social, que se manifesta como vers\u00e3o moderna da antiga ideia de \u201cra\u00e7a pura\u201d. Desse modo, continua-se a promover, de maneira expl\u00edcita ou velada, o exterm\u00ednio dos mais fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis, legitimando o crescimento das chamadas periferias existenciais. Este fen\u00f4meno \u00e9 vis\u00edvel a olho nu e caminha lado a lado com processos de higieniza\u00e7\u00e3o urbana, frequentemente sustentados por um mercantilismo neoliberal e pela especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria que reduzem tudo \u00e0 l\u00f3gica da mercadoria e do neg\u00f3cio.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>Infelizmente, essa mesma atitude \u2014 muitas vezes revestida de um aparente puritanismo sagrado \u2014 tamb\u00e9m pode se infiltrar em nossas comunidades crist\u00e3s. N\u00e3o raramente erguem-se barreiras, f\u00edsicas e humanas, estruturais e simb\u00f3licas, que negam aconchego e acolhida justamente \u00e0s pessoas mais exclu\u00eddas e rejeitadas. Por motivos de g\u00eanero, de cor ou de origem, muitos s\u00e3o afastados ou julgados, enquanto justificativas legalistas acabam negando a eles aquilo que de mais sagrado o Mestre Jesus nos deixou: o mandamento do amor e da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Por isso, a quest\u00e3o da moradia ultrapassa em muito a simples constru\u00e7\u00e3o de casas ou de muros. \u00c0 luz da f\u00e9, trata-se de uma op\u00e7\u00e3o profundamente humana e tamb\u00e9m pol\u00edtica: a escolha de criar espa\u00e7os de acolhida, confian\u00e7a e dignidade para todos. Espa\u00e7os onde, independentemente das apar\u00eancias e das exterioridades hip\u00f3critas e legalistas, possa acontecer a a\u00e7\u00e3o libertadora de Deus, que transforma a l\u00f3gica da vingan\u00e7a e da exclus\u00e3o em experi\u00eancia de cuidado, ternura e amor.<\/p>\n<p>Nesse horizonte, a atitude de Jesus permanece profundamente prof\u00e9tica e contracultural. Ele revela o sentido mais verdadeiro da moradia humana: um lugar onde ningu\u00e9m \u00e9 julgado, exclu\u00eddo ou apedrejado; onde as pessoas n\u00e3o s\u00e3o reduzidas a n\u00fameros; onde a condena\u00e7\u00e3o cede lugar \u00e0 vida em abund\u00e2ncia. O Cardeal Van Thu\u00e2n chegou a chamar essas atitudes de Jesus de seus \u201cdefeitos\u201d: acolher todos, aproximar-se de todos, oferecer sempre uma nova oportunidade de vida.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m nesse sentido profundamente materno de Deus que Maria nos ensina. Com a espiritualidade e a sensibilidade pr\u00f3prias de todas as m\u00e3es, ela nos recorda que a verdadeira moradia se constr\u00f3i com escuta e palavra, sil\u00eancio e ora\u00e7\u00e3o, m\u00e3os operosas e passos que caminham em dire\u00e7\u00e3o aos lugares onde falta p\u00e3o, dignidade, afeto e um lugar para habitar. Nela, m\u00edstica e profecia caminham juntas, fazendo da vida um espa\u00e7o de louvor, ternura e justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim, o Deus que Maria acolhe e que vem habitar entre n\u00f3s continua presente nos rostos que muitas vezes n\u00e3o reconhecemos: nas cal\u00e7adas de nossas cidades, nas portas de nossas casas e tamb\u00e9m de nossas igrejas. \u00c9 ali que Ele passa fome, \u00e9 rejeitado, \u00e9 humilhado por causa de sua cor, de sua condi\u00e7\u00e3o social, de sua apar\u00eancia, da op\u00e7\u00e3o de g\u00eanero ou de sua inconformidade diante da hipocrisia de uma sociedade seletiva e excludente.<\/p>\n<p>Falar, portanto, de fraternidade e moradia \u00e9 muito mais do que promover uma campanha. \u00c9 fazer uma escolha de amor. \u00c9 assumir um estilo de vida que nos leva a abaixar-nos para lavar os p\u00e9s de uma humanidade ferida e violada por estruturas legalistas, justicialistas e excludentes.<\/p>\n<p>O sonho evang\u00e9lico da civiliza\u00e7\u00e3o do amor permanece, assim, como o grande desafio da verdadeira moradia: construir um mundo onde cada pessoa tenha n\u00e3o apenas um teto, mas um lugar digno para viver, ser acolhida e reconhecida como irm\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste ano, a Campanha da Fraternidade nos convida a ver, refletir e, sobretudo, agir diante do fen\u00f4meno da falta de moradia. 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