{"id":37635,"date":"2026-02-27T14:25:00","date_gmt":"2026-02-27T17:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=37635"},"modified":"2026-02-27T14:31:36","modified_gmt":"2026-02-27T17:31:36","slug":"reflexoes-sobre-a-quaresma-o-sistema-prisional-e-a-potencia-da-restauracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=37635","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre a Quaresma, o sistema prisional e a pot\u00eancia da restaura\u00e7\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Site-Imagem-Destacada.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-37636\" src=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Site-Imagem-Destacada.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Site-Imagem-Destacada.jpg 1920w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Site-Imagem-Destacada-300x169.jpg 300w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Site-Imagem-Destacada-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Site-Imagem-Destacada-768x432.jpg 768w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Site-Imagem-Destacada-1536x864.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na Quaresma, somos chamados ao jejum que vai al\u00e9m do alimento: jejum de indiferen\u00e7a, jejum de viol\u00eancia contra quem a gente n\u00e3o gosta, jejum de sermos duros de cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 tempo de romper as algemas, n\u00e3o apenas as de ferro, mas as do preconceito, do \u00f3dio e da frase repetida sem reflex\u00e3o: \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d. Quantas vezes o crist\u00e3o esquece que Jesus tamb\u00e9m foi morto e, ainda assim, n\u00e3o foi vencido pela morte? Ele foi condenado pelo sistema, executado pelo Estado, e se identificou com os \u00faltimos. Na caminhada da Pastoral Carcer\u00e1ria, a Quaresma ganha rosto concreto: o rosto das pessoas privadas de liberdade, das fam\u00edlias destro\u00e7adas, das m\u00e3es que aguardam not\u00edcias, das mulheres e homens que sonham recome\u00e7ar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Campanha da Fraternidade 2026 nos recorda que as egressas e os egressos do sistema prisional tamb\u00e9m precisam de TETO, TRABALHO e DIGNIDADE. N\u00e3o h\u00e1 convers\u00e3o verdadeira sem compromisso com reintegra\u00e7\u00e3o, sem contar com a justi\u00e7a restaurativa como caminho de cura e responsabilidade partilhada. Ele veio morar no meio de n\u00f3s nos mais variados jeitos e hist\u00f3rias: no povo de rua, nas mulheres em situa\u00e7\u00e3o de prostitui\u00e7\u00e3o, nas pessoas privadas de liberdade, nas crian\u00e7as famintas, nas fam\u00edlias destro\u00e7adas, nas pessoas com orienta\u00e7\u00e3o sexual diferente, nos dependentes qu\u00edmicos, nos migrantes, nos esquecidos. Cristo continua crucificado em cada corpo ferido pela exclus\u00e3o. Buscar um mundo sem c\u00e1rceres \u00e9 acreditar que a justi\u00e7a pode ser um abra\u00e7o, que responsabilizar n\u00e3o \u00e9 descartar, que restaurar \u00e9 mais forte do que punir. A Quaresma nos convida a isso: menos pedras nas m\u00e3os, mais pontes estendidas; menos condena\u00e7\u00e3o apressada, mais escuta; menos grades, mais esperan\u00e7a. Que o nosso jejum seja de \u00f3dio. Que a nossa penit\u00eancia seja amar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Jesus praticou justi\u00e7a restaurativa muito antes de darmos esse nome a ela. Ele n\u00e3o descartava pessoas; Ele as escutava, devolvia dignidade e as reintegrava \u00e0 comunidade. Com a samaritana no po\u00e7o (Jo 4), rompeu barreiras religiosas e morais, escutou sua hist\u00f3ria e a transformou em anunciadora da Boa Nova. Com Zaqueu (Lc 19,1-10), n\u00e3o negou o erro do explorador, mas entrou em sua casa; e do encontro nasceu o reconhecimento, a repara\u00e7\u00e3o: \u201cSenhor, darei metade dos meus bens aos pobres\u201d. Com o cego de Jeric\u00f3 (Mc 10,46-52), parou no meio da multid\u00e3o e perguntou: \u201cQue queres que eu te fa\u00e7a?\u201d. Antes do milagre, houve escuta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m diante da mulher acusada (Jo 8,1-11), Ele n\u00e3o negou o mal, mas rompeu a l\u00f3gica da condena\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria: \u201cQuem n\u00e3o tiver pecado, atire a primeira pedra\u201d. E ao final disse: \u201cEu tamb\u00e9m n\u00e3o te condeno. Vai e n\u00e3o peques mais.\u201d N\u00e3o \u00e9 impunidade. \u00c9 a responsabiliza\u00e7\u00e3o que nasce do encontro, \u00e9 a convers\u00e3o que nasce do reconhecimento da pr\u00f3pria verdade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A justi\u00e7a restaurativa n\u00e3o significa passar a m\u00e3o na cabe\u00e7a ou fingir que nada aconteceu. Pelo contr\u00e1rio: \u00e9 responsabilizar-se, reconhecer o dano, reparar o que for poss\u00edvel e reconectar la\u00e7os rompidos. \u00c9 criar espa\u00e7o onde v\u00edtima e ofensor t\u00eam o direito de serem ouvidos em suas dores e necessidades. \u00c9 sair da l\u00f3gica do descarte para entrar na l\u00f3gica da reconstru\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nas pr\u00e1ticas circulares, c\u00edrculos de constru\u00e7\u00e3o de paz, aprendemos isso concretamente: um espa\u00e7o de escuta ativa, onde cada pessoa fala e \u00e9 ouvida sem interrup\u00e7\u00e3o; um espa\u00e7o de confian\u00e7a, de sigilo e fidelidade \u00e0 palavra partilhada; um espa\u00e7o onde a verdade n\u00e3o \u00e9 arma, mas ponte. Ali, pouco a pouco, a dignidade \u00e9 restaurada, os v\u00ednculos s\u00e3o reconstru\u00eddos, e a comunidade aprende a cuidar de suas pr\u00f3prias feridas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Buscar um mundo sem c\u00e1rceres \u00e9 acreditar que a justi\u00e7a pode ser um abra\u00e7o, que responsabilizar n\u00e3o \u00e9 descartar, que restaurar \u00e9 mais forte do que punir. A Quaresma nos convida a esse jejum profundo: jejum de \u00f3dio, jejum de vingan\u00e7a, jejum de cora\u00e7\u00f5es endurecidos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEu vim para que todos tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10). Que essa vida abundante alcance tamb\u00e9m quem errou, quem sofreu, quem foi ferido e quem feriu. Que a nossa penit\u00eancia seja amar. E que a P\u00e1scoa flores\u00e7a como promessa de um mundo onde a justi\u00e7a \u00e9 paz que se abra\u00e7a e ningu\u00e9m \u00e9 reduzido ao seu pior erro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Vera Dalzotto\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Quaresma, somos chamados ao jejum que vai al\u00e9m do alimento: jejum de indiferen\u00e7a, jejum de viol\u00eancia contra quem a gente n\u00e3o gosta, jejum de sermos duros de cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 tempo de romper as algemas, n\u00e3o apenas as de ferro, mas as do preconceito, do \u00f3dio e da frase repetida sem reflex\u00e3o: \u201cbandido bom \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37636,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_angie_page":false,"page_builder":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-37635","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/37635","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=37635"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/37635\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":37638,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/37635\/revisions\/37638"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/37636"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=37635"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=37635"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=37635"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}