{"id":37547,"date":"2025-11-20T08:00:51","date_gmt":"2025-11-20T11:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=37547"},"modified":"2026-08-02T07:21:10","modified_gmt":"2026-08-02T10:21:10","slug":"consciencia-negra-e-o-encarceramento-feminino-quando-o-estado-falha-a-resistencia-se-torna-urgente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=37547","title":{"rendered":"Consci\u00eancia Negra e o encarceramento feminino: quando o Estado falha, a resist\u00eancia se torna urgente"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-37548\" src=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Templates-Site-2-1024x576.png\" alt=\"Consci\u00eancia-Negra\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Templates-Site-2-1024x576.png 1024w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Templates-Site-2-300x169.png 300w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Templates-Site-2-768x432.png 768w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Templates-Site-2-1536x864.png 1536w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Templates-Site-2.png 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A realidade das mulheres encarceradas no Brasil, especialmente das mulheres negras, exige uma an\u00e1lise \u00e0 luz dos <\/span><b>direitos fundamentais<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, das intersec\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a, classe e maternidade. A legisla\u00e7\u00e3o brasileira, a jurisprud\u00eancia recente, tratados internacionais e estudos emp\u00edricos indicam caminhos para proteger a dignidade, a vida familiar e a igualdade racial, ainda que na pr\u00e1tica esses direitos enfrentem desafios estruturais, como a atua\u00e7\u00e3o perpassada pela seletividade penal do judici\u00e1rio e das pol\u00edcias.<\/span><\/p>\n<h4><b>Direitos Constitucionais e Fundamentais<\/b><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O <\/span><b>Art. 1\u00ba, III, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, que consagra a dignidade da pessoa humana, e o <\/span><b>Art. 5\u00ba<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, que visa garantir a igualdade formal e proibir a discrimina\u00e7\u00e3o, s\u00e3o fundamentais para compreender a prote\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0s mulheres presas. A <\/span><b>Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> (Art. 227) refor\u00e7a que o Estado deve assegurar o conv\u00edvio familiar, especialmente para crian\u00e7as menores de 12 anos, tornando a presen\u00e7a materna um direito priorit\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<h4><b>Tratados Internacionais<\/b><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Brasil, como signat\u00e1rio de importantes conven\u00e7\u00f5es de direitos humanos, como a <\/span><b>CEDAW<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Conven\u00e7\u00e3o sobre a Elimina\u00e7\u00e3o de Todas as Formas de Discrimina\u00e7\u00e3o contra a Mulher<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">), a <\/span><b>Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> e as <\/span><b>Regras de Bangkok<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, tem a obriga\u00e7\u00e3o de adotar medidas espec\u00edficas para proteger gestantes e m\u00e3es privadas de liberdade, garantindo-lhes tratamento humanizado e aten\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades de cuidado infantil, assim como \u00e0s necessidades da pr\u00f3pria mulher nesse est\u00e1gio da vida.<\/span><\/p>\n<h4><b>Jurisprud\u00eancia recente<\/b><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A jurisprud\u00eancia do <\/span><b>STF e STJ<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> refor\u00e7a que a presen\u00e7a materna \u00e9 presumivelmente imprescind\u00edvel para crian\u00e7as menores de 12 anos, tornando a pris\u00e3o domiciliar n\u00e3o apenas um direito, mas uma obriga\u00e7\u00e3o do Estado, sempre que n\u00e3o haja risco concreto \u00e0 ordem p\u00fablica ou \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da lei. Alguns exemplos de habeas corpus julgados recentemente que demonstram o posicionamento dos tribunais superiores quanto \u00e0 necessidade de garantia dos direitos das m\u00e3es, gestantes e lactantes privadas de liberdade:<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><b>HC 444370\/SP (STJ, 2018)<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Substitui\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o preventiva por domiciliar de m\u00e3e de crian\u00e7a menor de 12 anos.<\/span><\/li>\n<li><b>HC coletivo 143.641\/SP (STF)<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; M\u00e3es, gestantes ou lactantes devem ter pris\u00e3o preventiva substitu\u00edda por domiciliar, salvo situa\u00e7\u00f5es excepcionais.<\/span><\/li>\n<li><b>HC 250929 (STF, 2024)<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Mutir\u00e3o carcer\u00e1rio para avaliar casos de m\u00e3es, concretizando o entendimento do HC coletivo.<\/span><\/li>\n<li><b>HC 87.030\/SP (STF)<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; Refor\u00e7a progress\u00e3o de regime para m\u00e3es de filhos menores em perspectiva humanit\u00e1ria.<\/span><\/li>\n<li><b>S\u00famula 536\/STF<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; A pris\u00e3o provis\u00f3ria de gestantes ou lactantes deve ser excepcional, quando n\u00e3o houver alternativas menos gravosas.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A jurisprud\u00eancia mais tarde se consolidou no C\u00f3digo de Processo Penal, que passou a prever, em seu Art. 318, a possibilidade de convers\u00e3o da pris\u00e3o preventiva em domiciliar nos casos de m\u00e3es de crian\u00e7as menores de 12 anos ou de pessoas com defici\u00eancia, gestantes ou lactantes, e tamb\u00e9m em casos de pais de crian\u00e7as menores de 12 anos ou de pessoas com defici\u00eancia que comprovarem serem seus \u00fanicos cuidadores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essas normas e a jurisprud\u00eancia revelam uma tentativa do direito de se sensibilizar \u00e0s necessidades das mulheres encarceradas, mas sua implementa\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m de ser deficit\u00e1ria, n\u00e3o resolver\u00e1 os problemas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o de mulheres, posto que, a partir da nova lei de drogas, o encarceramento feminino vem aumentando de maneira alarmante.<\/span><\/p>\n<h4><b>Vulnerabilidade estrutural das mulheres negras<\/b><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A popula\u00e7\u00e3o feminina encarcerada negra enfrenta uma tripla<\/span><b> vulnerabilidade<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: ser mulher em um sistema prisional majoritariamente masculino e ser negra e pobre em um sistema de justi\u00e7a historicamente seletivo. Estudos recentes mostram:\u00a0<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Cerca de <\/span><b>68% das mulheres presas no Brasil s\u00e3o negras<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> (pretas ou pardas).<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Aproximadamente <\/span><b>74% s\u00e3o m\u00e3es<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, muitas com filhos sob sua responsabilidade direta.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Grande parte s\u00e3o jovens (18-34 anos), com baixa escolaridade e que se encontravam em condi\u00e7\u00f5es de vida prec\u00e1rias antes da pris\u00e3o.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa realidade evidencia que o encarceramento feminino negro n\u00e3o \u00e9 apenas quest\u00e3o de cumprimento de pena, mas <\/span><b>express\u00e3o de desigualdades raciais e socioecon\u00f4micas hist\u00f3ricas<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, que se refletem diretamente no enfoque que a seletividade penal d\u00e1 \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra e pobre, baseada na discrimina\u00e7\u00e3o estrutural.<\/span><\/p>\n<h4><b>Papel do sistema legal<\/b><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A legisla\u00e7\u00e3o e a jurisprud\u00eancia recentes apontam caminhos para reduzir a vulnerabilidade de mulheres negras no c\u00e1rcere: a possibilidade de pris\u00e3o domiciliar para gestantes, lactantes e m\u00e3es de crian\u00e7as menores de 12 anos; o reconhecimento, pelo STF e pelo STJ, da imprescindibilidade materna como regra; e a reafirma\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da dignidade humana e da igualdade racial, fortalecida por decis\u00f5es de 2024 que vedam abordagens policiais baseadas em ra\u00e7a ou apar\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nada disso, por\u00e9m, se concretiza automaticamente. A efic\u00e1cia desses dispositivos depende de uma justi\u00e7a que funcione, de magistrados sens\u00edveis \u00e0 realidade racial e social das mulheres encarceradas e da atua\u00e7\u00e3o vigilante da advocacia, das pastorais e dos movimentos sociais. Sem isso, leis e princ\u00edpios permanecem como promessas abstratas. Apenas a press\u00e3o popular pode reivindicar mudan\u00e7as mais significativas e que v\u00e3o de acordo com os reais interesses populares. N\u00e3o \u00e9 papel do Judici\u00e1rio alterar a lei de drogas que leva \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o de in\u00fameras mulheres brasileiras, ou seja, a sua interpreta\u00e7\u00e3o sobre as leis s\u00f3 pode ir at\u00e9 certo ponto, de forma que a altera\u00e7\u00e3o dessas leis que propagam o racismo institucional deve ser uma luta social. O judici\u00e1rio n\u00e3o pode levar \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o do sistema prisional, que tanto machuca pessoas pretas e pobres, que jamais ressocializa. Essa \u00e9 uma luta popular.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Estado, que se omite quando deveria garantir sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e bem-estar, aparece com for\u00e7a apenas para punir: n\u00e3o oferece ber\u00e7\u00e1rios, mas ergue celas; n\u00e3o assegura cuidados, mas refor\u00e7a a vigil\u00e2ncia. E \u00e9 importante lembrar que n\u00e3o \u00e9 o direito, por si s\u00f3, que transforma o mundo, at\u00e9 muito recentemente, o pr\u00f3prio direito servia para criminalizar a pobreza e legitimar desigualdades. A mudan\u00e7a real depende de como, e para quem, as normas s\u00e3o usadas.<\/span><\/p>\n<h4><b>Uma perspectiva pol\u00edtica e social<\/b><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Reconhecer essas mulheres como <\/span><b>humanas, m\u00e3es e cidad\u00e3s<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o jur\u00eddica: \u00e9 um <\/span><b>ato pol\u00edtico de resist\u00eancia<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Garantir que o cuidado n\u00e3o seja crime \u00e9 <\/span><b>enfrentar um Estado que naturalizou a dor<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. A <\/span><b>Consci\u00eancia Negra<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas mem\u00f3ria: \u00e9 compromisso com a liberdade, a igualdade e a dignidade humana.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h3><strong>Bibliografia e Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2015-2018\/2018\/lei\/l13769.htm\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2015-2018\/2018\/lei\/l13769.htm<\/span><\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.stf.jus.br\/arquivo\/cms\/noticianoticiastf\/anexo\/hc143641final3pdfvoto.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.stf.jus.br\/arquivo\/cms\/noticianoticiastf\/anexo\/hc143641final3pdfvoto.pdf<\/span><\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.jusbrasil.com.br\/jurisprudencia\/stj\/4392641239\/inteiro-teor-4392641428\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.jusbrasil.com.br\/jurisprudencia\/stj\/4392641239\/inteiro-teor-4392641428<\/span><\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.unodc.org\/documents\/commissions\/CCPCJ\/CCPCJ_Sessions\/CCPCJ_31\/TD_presentations\/Day_2\/GRULAC_Carolina_SOARES_Session_2.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.unodc.org\/documents\/commissions\/CCPCJ\/CCPCJ_Sessions\/CCPCJ_31\/TD_presentations\/Day_2\/GRULAC_Carolina_SOARES_Session_2.pdf<\/span><\/a><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A realidade das mulheres encarceradas no Brasil, especialmente das mulheres negras, exige uma an\u00e1lise \u00e0 luz dos direitos fundamentais, das intersec\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a, classe e maternidade. 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