{"id":35567,"date":"2023-04-04T12:22:04","date_gmt":"2023-04-04T15:22:04","guid":{"rendered":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=35567"},"modified":"2026-08-02T03:04:02","modified_gmt":"2026-08-02T06:04:02","slug":"artigo-saude-no-carcere-e-a-urgencia-do-desencarceramento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=35567","title":{"rendered":"Artigo: Sa\u00fade no c\u00e1rcere e a urg\u00eancia do desencarceramento"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Jos\u00e9 Coutinho J\u00fanior*<br \/>\nArte: Maria Ritha Paix\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O sistema prisional brasileiro \u00e9 conhecido por suas diversas defici\u00eancias e problemas estruturais, como a superlota\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia, a falta de higiene e a precariedade do atendimento \u00e0 sa\u00fade dos presos.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 um preconceito grande no tratamento da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria enferma, pois \u201cse o SUS mal consegue atender a popula\u00e7\u00e3o em geral, por que tem de atender os presos?\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa l\u00f3gica leva \u00e0 neglig\u00eancia e falta de investimentos em unidades de sa\u00fade dentro das pris\u00f5es e \u00e0 falta de m\u00e9dicos e profissionais de sa\u00fade qualificados para lidar com as demandas espec\u00edficas das pessoas encarceradas. Frequentemente, a popula\u00e7\u00e3o prisional \u00e9 estigmatizada e marginalizada, o que leva a uma vis\u00e3o reducionista e estereotipada das suas necessidades de sa\u00fade.<\/span><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-35568 alignleft\" src=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Texto_saude_5-1024x1024.png\" alt=\"\" width=\"418\" height=\"418\" srcset=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Texto_saude_5-1024x1024.png 1024w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Texto_saude_5-300x300.png 300w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Texto_saude_5-150x150.png 150w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Texto_saude_5-768x768.png 768w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Texto_saude_5-1536x1536.png 1536w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Texto_saude_5-2048x2048.png 2048w\" sizes=\"(max-width: 418px) 100vw, 418px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro fator que agrava a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria din\u00e2mica do sistema prisional, que muitas vezes desencoraja as pessoas a buscarem atendimento m\u00e9dico ou a relatar suas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, por medo de retalia\u00e7\u00f5es ou repres\u00e1lias. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Para se ter uma ideia, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a taxa de mortalidade das pessoas encarceradas \u00e9 tr\u00eas vezes maior do que a da popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um estudo realizado pelo Grupo de Pesquisa em \u201cSa\u00fade nas Pris\u00f5es\u201d da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica (Ensp\/Fiocruz) Fiocruz, analisou as causas de \u00f3bito no Sistema Penitenci\u00e1rio do Estado do Rio de Janeiro (2016-2017). <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Os resultados apontam que as doen\u00e7as infecciosas foram respons\u00e1veis por 30% das mortes na popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, seguidas pelas doen\u00e7as do aparelho circulat\u00f3rio (22%), causas externas (12%) e as doen\u00e7as do aparelho respirat\u00f3rio (10%). Dentre as infecciosas, destacam-se HIV\/Aids (43%), tuberculose (40,7%) e septicemias (13%).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 importante tamb\u00e9m salientar que o alto \u00edndice de pessoas presas com doen\u00e7as infecciosas traz \u00e0 tona a diversos outros problemas enfrentados por essa popula\u00e7\u00e3o, muitas vezes, a insalubridade e as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias das celas e pavilh\u00f5es facilitam e aumentam a prolifera\u00e7\u00e3o de diversos insetos e parasitas causadores de doen\u00e7as.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 tamb\u00e9m a realidade da precariza\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o distribu\u00edda dentro das unidades prisionais, as quais por muitas vezes, recebem marmitas com alimentos crus, azedos ou vencidos, o que resulta em uma s\u00e9rie de problemas de sa\u00fade para as pessoas encarceradas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diante desse cen\u00e1rio, \u00e9 fundamental que o Estado adote medidas efetivas para garantir o acesso \u00e0 sa\u00fade dos presos, que \u00e9 um direito humano b\u00e1sico e que deve ser respeitado independentemente do status jur\u00eddico ou social das pessoas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso implica em investimentos em infraestrutura de todas as \u00e1reas das unidades, na qualidade da alimenta\u00e7\u00e3o,\u00a0 e equipamentos de sa\u00fade nas pris\u00f5es, contrata\u00e7\u00e3o de profissionais capacitados e sensibilizados para lidar com as especificidades da popula\u00e7\u00e3o prisional e a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, que possam reduzir as doen\u00e7as e os problemas de sa\u00fade mental dentro das pris\u00f5es.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Mas\u00a0 para al\u00e9m de tais pol\u00edticas, \u00e9 essencial que nosso horizonte seja pelo desencarceramento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O c\u00e1rcere em si \u00e9 um ambiente adoecedor, estar em um espa\u00e7o superlotado, sofrendo diversas viola\u00e7\u00f5es, somado \u00e0s p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de higiene, alimenta\u00e7\u00e3o, adicionado \u00e0 dist\u00e2ncia de toda sua rede de afeto, vai levar essa popula\u00e7\u00e3o a adoecer. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 essencial tamb\u00e9m nos atentarmos ao adoecimento mental da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, a qual \u00e9 agredida de inimagin\u00e1veis formas diferentes dentro das unidades prisionais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, as doen\u00e7as em si s\u00e3o usadas como ferramentas de tortura: durante a pandemia, a PCr Nacional recebeu relatos de que presos que n\u00e3o tinham contra\u00eddo Covid-19 estavam propositalmente sendo colocados em celas com presos contaminados para pegarem o v\u00edrus.\u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">O mesmo foi constatado recentemente no sistema carcer\u00e1rio do RN, onde presos com tuberculose foram colocados em celas com presos que n\u00e3o tinham a doen\u00e7a, como forma de puni\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o simples para a quest\u00e3o da sa\u00fade no c\u00e1rcere, mas a PCr Nacional, que est\u00e1 nos c\u00e1rceres diariamente, enxerga que enquanto as pol\u00edticas p\u00fablicas relacionadas \u00e0 pris\u00e3o forem no sentido de mais puni\u00e7\u00e3o, exacerbando o pior que j\u00e1 existe dentro do sistema, as pris\u00f5es continuar\u00e3o sendo uma m\u00e1quina de morte, tortura e doen\u00e7a.<\/p>\n<p>*: Jos\u00e9 Coutinho J\u00fanior \u00e9 jornalista e assessor de comunica\u00e7\u00e3o da Pastoral Carcer\u00e1ria Nacional<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Coutinho 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