{"id":35167,"date":"2022-09-29T15:26:36","date_gmt":"2022-09-29T18:26:36","guid":{"rendered":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=35167"},"modified":"2026-08-02T03:04:04","modified_gmt":"2026-08-02T06:04:04","slug":"relatos-de-pe-chico-reardon-sobre-o-massacre-do-carandiru","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=35167","title":{"rendered":"Relatos de Pe. Chico Reardon sobre o Massacre do Carandiru"},"content":{"rendered":"<p>Padre Chico Reardon, um dos primeiros coordenadores da Pastoral Carcer\u00e1ria Nacional, foi, dentre v\u00e1rios agentes da PCr, algu\u00e9m que presenciou o Massacre do Carandiru, antiga Casa de Deten\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, no dia 02 de outubro de 1992. Hoje, completando 30 anos ap\u00f3s o ocorrido, trouxemos alguns dos seus registros para lembrarmos deste fato e dizer que o massacre n\u00e3o acabou.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s este fat\u00eddico acontecimento, ele relatou suas cenas e opini\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao massacre e seus efeitos em um di\u00e1rio publicado no livro \u201cTestemunho de um Oblato no Extinto Carandiru\u201d.<\/p>\n<p>Confira algumas de suas reflex\u00f5es:<\/p>\n<p>\u201cNo in\u00edcio da confus\u00e3o, dois diretores tentaram<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-35168 alignleft\" src=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-para-o-relato-do-Pe-Chico.jpg\" alt=\"\" width=\"394\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-para-o-relato-do-Pe-Chico.jpg 1024w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-para-o-relato-do-Pe-Chico-300x203.jpg 300w, https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Foto-para-o-relato-do-Pe-Chico-768x519.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 394px) 100vw, 394px\" \/>\u00a0conversar com os presos, mas eles fizeram muito barulho e os vaiaram. (&#8230;) Alguns dos PMs puxaram e empurraram os diretores para o lado com o cano da metralhadora no peito deles dizendo que quem mandava l\u00e1 era o oficial da PM. Instantes depois foi dada a ordem para invadir e os PMs entraram no Pavilh\u00e3o j\u00e1 atirando em tudo e em todos, resultando no que conhecemos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTudo indica que os PMs n\u00e3o permitiram que os diretores da Casa de Deten\u00e7\u00e3o adentrassem no Pavilh\u00e3o 09 para tentar um di\u00e1logo com os presos rebelados\u201d<\/p>\n<p>\u201cOs relatos nos perturbam porque por tudo que ouvimos de funcion\u00e1rios e diretores, o poder de decis\u00e3o sobre o que fazer lhes foi arrancado das m\u00e3os pela PM\u201d<\/p>\n<p>\u201cTestemunhas oculares dizem que os policiais militares entraram nos dois corredores, um \u00e0 esquerda e o outro \u00e0 direita, j\u00e1 enfiando as metralhadoras nos guich\u00eas das portas, atirando em presos j\u00e1 nus que tinham se rendido. Na cela 284C, dois presos foram chacinados assim. No lado esquerdo, os soldados viraram para a esquerda e entraram na cela 252E onde os presos j\u00e1 estavam rendidos. Os relatos de todos os presos s\u00e3o concordes e un\u00e2nimes em dizer que foi desta maneira que os PMs foram passando pela galeria toda, atirando pelos guich\u00eas de algumas celas e entrando em outras\u201d<\/p>\n<p>\u201cAlguns presos se salvaram pelo fato de se jogar junto aos corpos de seus colegas j\u00e1 mortos e fingir que estavam mortos tamb\u00e9m. Eles tinham que segurar a respira\u00e7\u00e3o e n\u00e3o podiam gritar quando os PMs passavam baionetando cada corpo no p\u00e9 ou pisando na cabe\u00e7a de cada preso ca\u00eddo para ver se algu\u00e9m ainda dava um grito ou gemido\u201d<\/p>\n<p>\u201cOutros tantos presos foram mortos por uma bala na cabe\u00e7a\/nuca ou pelos c\u00e3es. (&#8230;) Muitos presos ouviram o comandante no 2\u00ba andar berrar ordens para parar de matar, pois j\u00e1 haviam matado bastante\u201d<\/p>\n<p>\u201cTodos os presos sobreviventes foram mandados se despir e descer em fila indiana para o p\u00e1tio interior do Pavilh\u00e3o, passando por um \u201ccorredor polan\u00eas\u201d, tanto nas galerias quanto nas escadas, momento este em que todos os presos levaram chutes, socos, golpes de baioneta nas costas, nuca e cabe\u00e7a, deferidos pela PM enfileirada nos dois lados da galeria e da escada\u201d<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 no p\u00e1tio interno do Pavilh\u00e3o, onde os presos foram mandados se sentarem ou se deitarem nus na chuva, das 17h30 \u00e0 01h00, os PMs perguntaram aos presos quem estava ferido para que estes se apresentassem, pois lhe dariam um curativo.<\/p>\n<p>Alguns presos feridos se apresentaram, infelizmente. Uns foram executados com tiro na cabe\u00e7a\/nuca dentro da chefia e outros foram estra\u00e7alhados e mortos pelos c\u00e3es da PM\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o podiam tossir e nem se mexer. Os presos que involuntariamente mexiam a perna ou o bra\u00e7o, devido c\u00e2imbras que sentiam por estarem sentados ou deitados por horas e horas sob a chuva, eram executados no mesmo instante\u201d<\/p>\n<p>\u201cNo m\u00ednimo foram 111 mortos e 150\/200 presos machucados. Provavelmente havia muito mais mortos. Os presos estavam conferindo cela por cela, andar por andar e esperavam ter uma nova listagem dos falecidos, desaparecidos ou feridos dentro de alguns dias\u201d<\/p>\n<p>\u201cA PM diz que tamb\u00e9m sofreu baixas, mas s\u00e3o pouqu\u00edssimos os que acreditam na vers\u00e3o deles, sendo que faltaram com a transpar\u00eancia e rapidez necess\u00e1rias, ao apresentarem quantos teriam sido os seus feridos, somente 6 ou 7 dias depois do massacre. No in\u00edcio eram 13 PMs feridos, depois 8 e finalmente 22 ou 23, segundo os jornais. Quem realmente sabe? Quem realmente acredita?\u201d<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00d5ES DA PCR:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMembros da Pastoral Carcer\u00e1ria viram os corpos de presos crivados de balas e facadas, conversaram com os sobreviventes, quase todos machucados de uma ou outra maneira pela tropa da PM na invas\u00e3o, e com funcion\u00e1rios e diretores da Casa de Deten\u00e7\u00e3o. Conversamos muitos dias com todos, oferecendo solidariedade e esperan\u00e7a\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o havia plano de fuga em massa, nem dos 2069 presos do Pavilh\u00e3o 09, e muito menos por parte dos outros presos da Casa, conforme afirmou gratuitamente o ent\u00e3o Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica naquela entrevista de que ele deu quando faltavam quinze ou cinte minutos para o encerramento das urnas em 03\/10\/92\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o havia ref\u00e9ns, embora os presos tivessem oportunidades de se ter um monte, os pr\u00f3prios funcion\u00e1rios e diretores da Casa afirmam isto\u201d<\/p>\n<p>\u201cOs presos n\u00e3o tinham armas de fogo em seu poder, tinham pequenas armas brancas costumeiras em pres\u00eddio, isto \u00e9, estiletes, canos, porretes, tudo fabricado artesanalmente. Estas armas de fogo supostamente encontradas pelos PMs, s\u00e3o \u201ccabrito\u201d, armas estranhas, de terceiros, introduzidas na pris\u00e3o pela pr\u00f3pria PM que, ap\u00f3s derrubar os presos, com rajadas de metralhadoras, jogaram estas armas no ch\u00e3o, para logo peg\u00e1-las afirmando que eram dos presos, para se safar e eximir a responsabilidade da chacina\u201d<\/p>\n<p>\u201cOs presos em sua maioria, quando souberam que a tropa de choque estava entrando, jogaram as suas armas brancas fora da galeria, pelas ventanas, entraram nas suas celas e ficaram aguardando a passagem da PM com medo de trepida\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>\u201cConversei com tantos que sei que a maioria lembrou-se de se despir e ficar com as m\u00e3os na cabe\u00e7a ou atr\u00e1s da nuca enquanto outros me disseram que ficaram t\u00e3o apavorados que se esqueceram de tirar as suas roupas, mas que ficaram sentados ou deitados nas suas celas com as m\u00e3os para cima ou em frente de suas cabe\u00e7as. (&#8230;) Os presos j\u00e1 sabiam que estavam vencidos. N\u00e3o iriam enfrentar metralhadoras e c\u00e3es s\u00f3 com peda\u00e7os de faca e paus\u201d<\/p>\n<p>\u201cMembros da PCr (Pe. Chico, Pe. Guilherme e Irm\u00e3o Assun\u00e7\u00e3o) viram 13 cad\u00e1veres no banheiro do andar t\u00e9rreo do Pavilh\u00e3o 04, cujos corpos tinham sido deixados para tr\u00e1s pelos PMs na remo\u00e7\u00e3o r\u00e1pida durante a madrugada. Corpos estes com muitas perfura\u00e7\u00f5es de bala, do t\u00f3rax para cima e para tr\u00e1s, inclusive na cabe\u00e7a, pesco\u00e7o e nuca, o que representa sinal universal de rendi\u00e7\u00e3o. Outros corpos foram desfigurados pela PM, com baionetas e facas, para disfar\u00e7ar e fazer parecer morte por esfaqueamento na vers\u00e3o oficial de guerra generalizada de quadrilha\u201d<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 quem pense que os PMs se auto feriram, como em outras oportunidades, para justamente disfar\u00e7ar e justificar a carnificina que tinham acabado de cometer, ou suas balas chicotearam v\u00e1rias vezes at\u00e9 atingi-los&#8221;<\/p>\n<p>\u201cMembros da PCr estavam na Casa na 6\u00aa feira \u00e0 noite, mas n\u00e3o foram permitidos de adentrar no Pavilh\u00e3o 09, sendo comunicados que o n\u00famero de mortos era apenas oito, quando no mesmo instante o Governador do Estado sabia que j\u00e1 haviam ao menos 90 mortos\u201d<\/p>\n<p>\u201cA linha de comando foi quebrada ou alterada: nunca poderia ser dada a ordem de entrada da tropa, sem antes esgotar todas as possibilidades de di\u00e1logos. Os diretores afirmam que tentaram dialogar, os ju\u00edzes dizem que chegaram tarde, presos afirmam que n\u00e3o houve tentativa de di\u00e1logo. Parece que a PM sabia que se demorassem muito mais, o juiz corregedor mandaria parar a invas\u00e3o, parece que queriam de todo jeito entrar, matar e dominar os presos\u201d<\/p>\n<p>\u201cPossivelmente houve interfer\u00eancia do Poder Executivo na \u00e1rea do Poder Judici\u00e1rio, no epis\u00f3dio todo, o que seria a ponta do iceberg de uma crise institucional estadual\u201d<\/p>\n<p>\u201cIsto tudo aponta, mais uma vez, a urgente necessidade de bolar um novo procedimento para emerg\u00eancias em cadeias e pres\u00eddios, com a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil, n\u00e3o se permitindo mais que apenas as autoridades policiais e prisionais elaborem tais procedimentos de emerg\u00eancia. A Pastoral Carcer\u00e1ria vem insistindo nisto junto \u00e0s autoridades desde 1987. (&#8230;) As autoridades maiores do sistema e as autoridades policiais n\u00e3o sabem dialogar com o preso nervoso, tem que haver outros interlocutores de fora do sistema. Al\u00e9m do mais, se o pr\u00f3prio sistema bolar os novos procedimentos sozinho junto com a PM, estes procedimentos de emerg\u00eancia v\u00e3o ficar escondidos e inacess\u00edveis \u00e0 sociedade em geral e \u00e0s entidades que militam na \u00e1rea, efetivamente impedindo outra vez qualquer possibilidade de fiscaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d<\/p>\n<p><em>Trecho do livro \u201cTestemunho de um Oblato no Extinto Carandiru\u201d de Pe. Chico Reardon<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Chico Reardon, um dos primeiros coordenadores da Pastoral Carcer\u00e1ria Nacional, foi, dentre v\u00e1rios agentes da PCr, algu\u00e9m que presenciou o Massacre do Carandiru, antiga Casa de Deten\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, no dia 02 de outubro de 1992. 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