{"id":32230,"date":"2019-05-03T12:59:46","date_gmt":"2019-05-03T15:59:46","guid":{"rendered":"http:\/\/carceraria.org.br\/?p=32230"},"modified":"2026-08-02T03:04:11","modified_gmt":"2026-08-02T06:04:11","slug":"40-anos-da-conferencia-de-puebla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=32230","title":{"rendered":"40 anos da Confer\u00eancia de Puebla"},"content":{"rendered":"<p>Se em 2018 celebramos as bodas de ouro, o cinquenten\u00e1rio da segunda Assembleia do Episcopado Latino-americano conhecida como Medell\u00edn, 2019 nos traz mais uma data celebrativa, a dos 40 anos da terceira Assembleia do Episcopado Latino-americano que, do lugar de sua realiza\u00e7\u00e3o no M\u00e9xico \u00e9 conhecida como Confer\u00eancia de Puebla. Convocada pelo papa Paulo VI, confirmada por Jo\u00e3o Paulo I e sucessivamente por Jo\u00e3o Paulo II, que participou de sua abertura, realizou-se do dia 27 de janeiro ao dia 13 de fevereiro de 1979.<\/p>\n<p>Na introdu\u00e7\u00e3o do documento, resultado de intenso trabalho colegial, os bispos afirmam referindo-se a Puebla: \u201cela \u00e9 acima de tudo um esp\u00edrito: o esp\u00edrito de uma Igreja que se projeta com renovado vigor a servi\u00e7o de nossos povos cuja realiza\u00e7\u00e3o h\u00e1 de seguir o chamado de vida e transforma\u00e7\u00e3o de quem colocou seu tabern\u00e1culo no cora\u00e7\u00e3o de nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-29796 size-medium\" src=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Papa-1-300x182.jpeg-300x182.jpg\" alt=\"O documento da Confer\u00eancia de Puebla tem car\u00e1ter pastoral, fonte de inspira\u00e7\u00e3o para a caminhada da Igreja na Am\u00e9rica Latina. \" width=\"300\" height=\"182\" \/>Por essa raz\u00e3o, mais que um tratado de teologia, um discurso sistem\u00e1tico e met\u00f3dico sobre a compreens\u00e3o da f\u00e9, o documento de Puebla tem car\u00e1ter pastoral, fonte de inspira\u00e7\u00e3o para a caminhada da Igreja na Am\u00e9rica Latina. O mesmo abre pistas, ilumina, denuncia e anuncia, e, sobretudo, incita \u00e0 criatividade, ao prosseguimento do processo evangelizador indicado em Medell\u00edn dentro de suas limita\u00e7\u00f5es e preocupa\u00e7\u00e3o com a ortodoxia, reflete, no seu todo, dez anos de pr\u00e1tica de uma Igreja que se definiu pela liberta\u00e7\u00e3o dos pobres.<\/p>\n<p>E justamente aqui se encontra a sua for\u00e7a e autoridade. Importante em Puebla foi a sua prepara\u00e7\u00e3o que teve a participa\u00e7\u00e3o e o envolvimento das bases ao ponto que o resultado final \u00e9 tudo o que dessa Assembleia esperavam os pobres da Am\u00e9rica Latina, os agentes de pastoral, os profetas e os te\u00f3logos. O documento cont\u00e9m prop\u00f3sitos e incentivos libert\u00e1rios, mas n\u00e3o fornece projetos nem procura detectar os movimentos hist\u00f3ricos libertadores que est\u00e3o em andamento na Am\u00e9rica Latina. Essa tarefa compete aos crist\u00e3os engajados, \u00e0s Comunidades Eclesiais de Base, \u00e0s Igrejas particulares.<\/p>\n<p><strong>Novo m\u00e9todo<br \/>\n<\/strong><br \/>\nUm dado interessante que sobressai de Puebla \u00e9 que em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida da Igreja riscos existem. Eles, por\u00e9m s\u00e3o uma dimens\u00e3o da f\u00e9. A caminhada da f\u00e9 est\u00e1 sempre envolta em obscuridade e penumbra: \u201cagora vemos em espelho e de maneira confusa\u201d (1Cor 13,12). E \u00e9 correndo risco que se realiza a entrega pessoal a Deus e ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Puebla inaugura e codifica um novo m\u00e9todo teol\u00f3gico pastoral na Am\u00e9rica Latina baseado em tr\u00eas passos: Ver, Julgar, Agir. O documento se desdobra em cinco partes: vis\u00e3o pastoral da realidade da Am\u00e9rica Latina (primeira parte) \u2013 Ver; des\u00edgnio de Deus sobre a Am\u00e9rica Latina (segunda parte) \u2013 Julgar; a evangeliza\u00e7\u00e3o na Igreja da Am\u00e9rica Latina: comunh\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o (terceira parte); a Igreja mission\u00e1ria a servi\u00e7o da evangeliza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina (quarta parte); op\u00e7\u00f5es pastorais (quinta parte) \u2013 Agir.<\/p>\n<p>Em tudo isso existe, por\u00e9m um eixo articulador que perpassa todo o documento que \u00e9: a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres. Ela \u00e9 o princ\u00edpio articulador, a alma, o princ\u00edpio a partir do qual devem ser examinadas e lidas a vis\u00e3o pastoral da realidade, a verdade integral sobre Jesus Cristo e sobre o homem, a Igreja, a evangeliza\u00e7\u00e3o. Neste contexto a pobreza n\u00e3o \u00e9 a \u201cevang\u00e9lica\u201d, mas a \u201canti-evang\u00e9lica\u201d, que \u00e9 sin\u00f4nimo de explora\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o, de situa\u00e7\u00e3o desumana. Trata-se da pobreza de dimens\u00e3o sociopol\u00edtica, isto \u00e9, generalizada e estrutural, produto de situa\u00e7\u00f5es e estruturas econ\u00f4micas sociais e pol\u00edticas que d\u00e3o origem a esse estado de pobreza, embora haja tamb\u00e9m outras causas da mis\u00e9ria. Eis porque os bispos n\u00e3o receiam afirmar que, na Am\u00e9rica Latina, \u201co melhor servi\u00e7o ao irm\u00e3o \u00e9 a evangeliza\u00e7\u00e3o que o liberta das injusti\u00e7as, o promove integralmente e o disp\u00f5e como filho de Deus\u201d.<\/p>\n<p>Por isso \u201ca Igreja condena aqueles que tendem a reduzir os espa\u00e7os da f\u00e9 \u00e0 vida pessoal ou familiar, excluindo a ordem profissional, econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica, como se o pecado, o amor, a ora\u00e7\u00e3o e o perd\u00e3o n\u00e3o tivessem a\u00ed relev\u00e2ncia\u201d. \u00c9 por isso que a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, marginaliza\u00e7\u00e3o, injusti\u00e7a e corrup\u00e7\u00e3o, que fere o continente latino-americano, exige do Povo de Deus e de cada crist\u00e3o um aut\u00eantico hero\u00edsmo no seu compromisso evangelizador, para que se possa superar t\u00e3o grandes obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>A partir de Puebla, muda tamb\u00e9m o entendimento da Doutrina Social da Igreja que jamais tinha usado em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo tons da mesma severidade demonstrada com rela\u00e7\u00e3o ao marxismo e socialismo, e avan\u00e7a neste sentido ao descrever o estado de escandalosa pobreza da Am\u00e9rica Latina onde mostra que essa pobreza generalizada \u00e9 gerada pelo sistema capitalista.<\/p>\n<p>Caracteriza-o como idolatria da riqueza, materialista e praticamente ateu, n\u00e3o receia em denomin\u00e1-lo como \u201csistema de pecado\u201d, e a realidade por ele implantada, como \u201cinjusti\u00e7a institucionalizada\u201d. Consequentemente substitui a tradicional linguagem desenvolvimentista e reformista pela linguagem libertadora.<\/p>\n<p>E neste contexto surge a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a evangeliza\u00e7\u00e3o e a defesa dos direitos humanos, pol\u00edticos e sociais, num continente que vive em \u201cpermanente viola\u00e7\u00e3o da dignidade da pessoa\u201d.<\/p>\n<p><strong>Evangelii Nuntiandi<br \/>\n<\/strong><br \/>\nDe fundamental import\u00e2ncia nesse momento tem sido a ilumina\u00e7\u00e3o da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Evangelii Nuntiandi, o Evangelho ao Povo, express\u00e3o do S\u00ednodo de 1974, onde o papa Paulo VI, afirma que a evangeliza\u00e7\u00e3o sup\u00f5e o conhecimento da realidade e o compromisso do Povo de Deus para superar \u201ca situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, marginaliza\u00e7\u00e3o, injusti\u00e7a e corrup\u00e7\u00e3o, que fere o continente\u201d. Isso leva a afirmar que, no social, no econ\u00f4mico, no pol\u00edtico, existe, pois, um teol\u00f3gico impl\u00edcito, uma refer\u00eancia ao Reino de Deus e \u00e0 salva\u00e7\u00e3o. Enfim a encarna\u00e7\u00e3o se realiza historicamente num contexto sociopol\u00edtico de opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma releitura e reapropria\u00e7\u00e3o de Puebla, n\u00e3o apenas como um fato celebrativo, mas como um caminho de pa\u00eds e continente latino-americano em \u00e2mbito sociopol\u00edtico eclesial, ser\u00e1 uma \u00f3tima ferramenta para encarar o momento presente e viver com maior intensidade a Campanha da Fraternidade de 2019: \u201cFraternidade e pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d e o seu lema: \u201cSer\u00e1s libertado pelo direito e pela justi\u00e7a\u201d (Is 1, 27).<\/p>\n<p><em>Por Gianfranco Graziola<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se em 2018 celebramos as bodas de ouro, o cinquenten\u00e1rio da segunda Assembleia do Episcopado Latino-americano conhecida como Medell\u00edn, 2019 nos traz mais uma data celebrativa, a dos 40 anos da terceira Assembleia do Episcopado Latino-americano que, do lugar de sua realiza\u00e7\u00e3o no M\u00e9xico \u00e9 conhecida como Confer\u00eancia de Puebla. 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