{"id":13448,"date":"2012-11-19T13:04:51","date_gmt":"2012-11-19T15:04:51","guid":{"rendered":"http:\/\/carceraria.org.br\/?p=13448"},"modified":"2026-07-01T12:56:39","modified_gmt":"2026-07-01T15:56:39","slug":"crime-e-loucura-contradicoes-e-senso-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carceraria.org.br\/?p=13448","title":{"rendered":"Crime e Loucura: Contradi\u00e7\u00f5es e Senso Comum"},"content":{"rendered":"<p>A repercuss\u00e3o nacional da transfer\u00eancia de um paciente em medida de seguran\u00e7a para Goi\u00e2nia, para ser tratado sob a supervis\u00e3o do Programa de Aten\u00e7\u00e3o Integrala o Louco Infrator (PAILI), trouxe \u00e0 tona o paradoxo de duas abordagens terap\u00eauticas absolutamente distintas para o atendimento \u00e0 pessoa com transtorno mental em conflito com a lei.<br \/>\nDe um lado, o manic\u00f4mio judici\u00e1rio, institui\u00e7\u00e3o onde homens e mulheres com transtornos mentais s\u00e3o recolhidos e mantidos enquanto n\u00e3o cessar a sua<br \/>\npericulosidade.Como na maioria dos casos o transtorno \u00e9 cr\u00f4nico, essas pessoas acabam por permanecer por anos a fio, quando n\u00e3o por toda a vida, internados nesses espa\u00e7os que de terap\u00eauticos pouco ou nada t\u00eam. O jovem paciente em quest\u00e3o estava numa institui\u00e7\u00e3o assim, no Estado do Paran\u00e1.<br \/>\nDe outro lado, o tratamento focado na reinser\u00e7\u00e3o social do paciente, onde a interna\u00e7\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra, sendo a liberdade, ali\u00e1s, importante instrumento terap\u00eautico para a obten\u00e7\u00e3o da inclus\u00e3o do paciente \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 sociedade. Assim funciona o PAILI,na Capital goiana.<br \/>\nEntretanto, h\u00e1 no senso comum a ideia de que o louco infrator deve\u201cpagar pelo que fez\u201d, preferencialmente exclu\u00eddo do conv\u00edvio social pelo resto da vida, nomanic\u00f4mio judici\u00e1rio, que seria o seu lugar. Tal pensamento parte da ideia de que houve uma condena\u00e7\u00e3o a ser cumprida no manic\u00f4mio. Ledo, por\u00e9m fundamental, engano.<br \/>\nO louco infrator n\u00e3o \u00e9 um condenado, como o s\u00e3o aquelas pessoas que cumprem suas penas nas penitenci\u00e1rias. Pelo contr\u00e1rio, a senten\u00e7a do juiz \u00e9 de absolvi\u00e7\u00e3o.Sim, o juiz declara inocente o louco justamente por conta da sua incapacidade de compreender a ilicitude da pr\u00f3pria conduta.<br \/>\nAcontece que quando era tida como legal e normal a interna\u00e7\u00e3o em manic\u00f4mios, a absolvi\u00e7\u00e3o se convertia, na pr\u00e1tica, em indefinida ou eterna priva\u00e7\u00e3o da liberdade. Pris\u00e3o perp\u00e9tua para uma pessoa declarada inocente. Da\u00ed o entendimento hoje cristalizado no senso comum de que o louco infrator deve expiar um castigo e cumprir uma san\u00e7\u00e3o penal.<br \/>\nEssa pr\u00e1tica da interna\u00e7\u00e3o em manic\u00f4mio, todavia, tornou-se ilegal com a edi\u00e7\u00e3o da Lei 10.216\/2001, n\u00e3o sem raz\u00e3o conhecida como Lei Antimanicomial, que passou a proibir a interna\u00e7\u00e3o em unidade com caracter\u00edsticas asilares, dentre outras disposi\u00e7\u00f5es que vieram humanizar a aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental no Brasil. Desde ent\u00e3o, pois, a pr\u00e1tica costumeira de prender os loucos em manic\u00f4mios judici\u00e1rios n\u00e3o mais tem sustenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica. A interna\u00e7\u00e3o deixa de ter a periculosidade como fundamento, podendo ser utilizada, sim, mas apenas quando houver a indica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica dessa medida e quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes, dando-se prioridade para o atendimento em servi\u00e7os comunit\u00e1rios de sa\u00fade mental, como diz a lei.<br \/>\nEm seis anos de funcionamento, mais de 300 pacientes judici\u00e1rios acompanhados e baix\u00edssimos \u00edndices de reincid\u00eancia, sem nenhum caso de novo homic\u00eddio praticado por paciente, muito embora essa possibilidade esteja sempre presente, o Paili mostra que vale a pena correr o risco de se apostar na liberdade como um excelente recurso terap\u00eautico.<br \/>\n<strong>Haroldo Caetano da Silva<\/strong> \u00e9 promotor de Justi\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_angie_page":false,"page_builder":"","footnotes":""},"categories":[2037,2038],"tags":[2069],"class_list":["post-13448","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo","category-artigos-arquivos","tag-arquivo-2012"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=13448"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31776,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13448\/revisions\/31776"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=13448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=13448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/carceraria.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=13448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}