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Notícias › 24/10/2016

Nas lembranças de Daniel, muitas histórias de um inferno prisional

Daniel_egressoPor dez anos seguidos, ele acompanhou de perto, na própria pele, que “o sistema prisional brasileiro é um inferno”, como mesmo resume as condições carcerárias do país. Cumprida a pena por roubo e homicídio em unidades prisionais de Belo Horizonte (MG), Daniel Tiago da Silveira deixou a prisão com os dentes quebrados, sem familiares para ampará-lo e sem recursos para sobreviver. Resistiu aos convites de retornar à criminalidade e encontrou uma mão amiga para um outro rumo na vida.

Hoje trabalhando como vendedor, ele espera um dia lançar os livros que já tem escrito sobre as muitas experiências de vida pelas quais passou, incluindo a das mazelas das prisões. A seguir a íntegra da entrevista de Daniel Tiago da Silveira ao Site da PCr Nacional.

Site PCr Nacional – Muita gente fala sobre o sistema prisional, mas poucos conviveram nele por tanto tempo como você. O que é esse sistema?

Daniel Tiago da Silveira – O sistema prisional brasileiro é um inferno, sempre foi. Além de ser um inferno, é um meio de muita gente ganhar dinheiro. Eu vivenciei situações como uma em que eu ouvi um diretor de penitenciária dar ordem aos seus comandados para fazer o preso se revoltar cada vez mais, com procedimentos inusitados de tortura, de castigos injustos, com o objetivo de os presos se rebelarem, de quebrarem a prisão. E por quê? Porque se quebrassem a penitenciária, ele ia ganhar muito dinheiro com a reforma. Então, quem está lá para ressocializar não o faz, massacra. Existe muito abuso de poder, muita gente que não é capacitada para estar lá, existe muita injustiça, pois até a própria violência contra os presos tem fundo monetário, motivação capitalista. Há um total desprezo pela vida humana. O que eu já vi, por exemplo: em unidades prisionais onde estava havendo muita violência, denúncia de familiar, era chamado os grupos de direitos humanos. Porém, antes de os direitos humanos chegarem, a unidade já era avisada sobre isso e era feita uma grande maquiagem, é sempre feita essa grande maquiagem. Quando qualquer agente externo vai visitar uma penitenciária, um presídio, o que ele vai encontrar lá não é a realidade. Eles escondem os presos que estão machucados, oprimem os presos com a ameaça de cortar alguns benefícios, já não são quase nenhum, mas os que tem ameaçam cortar se disserem a verdade sobre o que está acontecendo. Muitas pessoas que estão ali cometeram crimes, é fato, porém, mais criminosas são as pessoas que agem dessa maneira, que saem do papel de educador, de ressocializador, para um papel de carrasco, um papel desumano.

Site PCr Nacional – Esse sistema é capaz de ressocializar alguém?

Daniel – Olha, só é ressocializado quem está cansado de sofrer. Os meninos novos que chegam ao sistema não vão ser ressocializados nunca. Eles vão viver em um círculo vicioso. A sociedade fala ‘ah, tem que ter pena de morte’, mas a pena de morte já existe. Estou pra te dizer que não é divulgado na mídia a quantidade de presos que morrem dentro das penitenciárias de maneira muito suspeita, que são levados para locais isolados e amanhecem supostamente suicidados. Isso é uma grande realidade. E eu, agora aqui de fora, observo que não se fala nada disso na mídia. Esses dados não são divulgados. Então, o preso para ser ressocializado tem que realmente querer sair porque não aguenta mais sofrer, do contrário, vai continuar neste sistema.

Site PCr Nacional – Como foi esse processo de saída da prisão para você?

Daniel – Eu sou filho de ex-presidiário. Minha mãe era viciada em droga, então, cresci em um lar que não tinha parâmetro sobre o que é direito, o que é certo. O que é supostamente errado, para mim era uma coisa banal, normal e correta. Não tive acesso a escola, só depois que fui estudar, então, esses fatores contribuíram para a vida que levei. Depois de muito sofrer por mais de uma década na prisão, não foi brincadeira, de ser massacrado de todas as formas, pois sofri diversos tipos de violência, chegaram, por exemplo, a quebrar todos os meus dentes, eu saí da prisão desdentado, sem lugar para ir, não tinha mais família, pois quase toda ela faleceu, não encontrava emprego de maneira alguma, não tinha qualificação. Tive mil oportunidades de ser abraçado pelo poder paralelo para solucionar o meu problema de moradia, de estética, mas eu persisti, pois não aguentava mais voltar para aquele lugar, de viver sob o domínio daquelas pessoas muito cruéis e ruins. Então, depois de muito quebrar a cara, eu procurei encontrar ajuda aqui fora e encontrei pessoas com o Greg Andrade, que é advogado, que é militante de causas assim, também o pessoal da UFMG que me deram um grande apoio: consegui um emprego, consegui dignidade, consegui um lar e comecei a modificar minha vida. Na verdade, durante o meu período de cárcere eu já estava com outra mente, escrevi cinco livros, embora ainda não tenha conseguido publicar nenhum deles ainda, porque hoje estou trabalhando muito e não consigo digitalizar esses livros. Estou até fazendo campanha em rede social, mas não aparece ninguém para ajudar a publicar os meus livros. Com humildade, digo que meus livros não ficam devendo em nada ao de escritores famosos, às literaturas clássicas. Eu trabalhei na biblioteca de uma penitenciária e li cerca de 3 mil livros. Então, decidi escrever, de próprio punho, e sem nenhum erro de português, os livros foram feitos com o dicionário do lado, com paciência.

Site PCr Nacional – E agora, do lado de fora, como você acha que pode contribuir com a sociedade?

Daniel – Eu posso contribuir da seguinte maneira: com a verdade, porque muito se maquia sobre o sistema prisional, muito se fala, mas pouco se faz. Existe uma mídia que manipula a população a querer uma pena de morte, quando, na verdade, ela já existe, só não é legalizada. Então, vou contribuindo com um diálogo, sempre quando posso, ajudo também alguns parentes de presos, faço de forma espontânea, tento contribuir com a sociedade e acho que a maior delas será publicando alguns livros com temas bastante realistas.

(Entrevista concedida a Daniel Gomes, assessor de imprensa da Pastoral Carcerária Nacional)

 


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