Padre Chico: um inovador da Pastoral Carcerária

 Em Igreja em Saída

padrechico “A nossa inspiração é ‘O que Jesus faria, o que ele diria? Como Ele trataria o preso?’ Nossos trabalhos incluem visitar e conversar com todos os presos, os que tem fé e os sem fé, os doentes, os que estão nas celas de castigo, fazer contato com os seus familiares, falar com o juiz e com outras autoridades. Enfim, ser solidário, ser irmão. Por isso, contestamos o tratamento desumano dado aos presos… A Igreja conseguirá marcar a sua presença misericordiosa e cheia de esperança, no meio daquele inferno que é a cadeia”.
Os trechos acima são de um dos muitos materiais de formação que o Padre Robert Francis Reardon, o Padre Chico, elaborou como subsídio para os integrantes da Pastoral Carcerária, quando a coordenou nacionalmente entre os anos de 1996 e 1999.
Com a proposta de manter a memória do Padre Chico e homenageá-lo, a Coordenação Nacional da Pastoral Carcerária está em campanha para reformar e equipar um ambiente de trabalho que receberá o nome de Sala Padre Chico.
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padrechico1Nascido nos Estados Unidos, o padre dos missionários Oblatos de Maria Imaculada (OMI) ingressou na Pastoral Carcerária de São Paulo em 1985, como capelão voluntário da Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru. O sacerdote, à época, atuava em paróquias da região Noroeste da capital paulista e tinha ciência que as precariedades sociais daquela localidade periférica eram a razão para muitas pessoas, especialmente as mais jovens, ingressarem na criminalidade.
Naquele mesmo ano, o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, decidiu institucionalizar as ações da Pastoral Carcerária na Arquidiocese. Até então, o agir misericordioso de visita e assistência religiosa aos presos era realizado, desde 1960, nos três maiores presídios da zona Norte da capital – Carandiru, Penitenciária Feminina da Capital e a atual Penitenciária Feminina de Sant´Ana, mas sem uma metodologia definida. O primeiro coordenador arquidiocesano da Pastoral foi o Padre Antonio Macedo da Silva, que seria substituído em 1988 pelo Padre Chico.
O religioso norte-americano foi o grande responsável por organizar os trabalhos da Pastoral Carcerária nas prisões. Padre Chico deu início à prática de reuniões mensais com todos os voluntários da Pastoral para avaliar as atividades realizadas e foi pioneiro na elaboração de materiais formativos para novos agentes da PCr. Também se preocupou em ampliar a quantidade de visitas às unidades prisionais e às casas dos familiares dos presos, conforme aumentava o número de voluntários da Pastoral na Arquidiocese de São Paulo.
Padre Chico sabia, porém, que apenas prestar assistência religiosa aos encarcerados não resolveria as mazelas das prisões brasileiras. Era preciso atuar de forma mais incisiva na garantia dos direitos individuais dos presos e discutir a realidade carcerária no País. Nesse sentido, a partir de então, a Pastoral ampliou o contato com juristas para denunciar as precárias condições de sobrevivência no ambiente prisional.
Essa estrutura organizada pelo Padre Chico em São Paulo espalhou-se por outras partes do Brasil e da América Latina e o religioso tornou-se uma pessoa de referência para a discussão das mazelas dos cárceres, integrando diversos grupos. Foi membro da subcomissão do Sistema Prisional da Seccional São Paulo da OAB (1988-1997); secretário executivo da coordenação nacional Pastoral Carcerária (1989-1996); membro da Associação Internacional de Atendimento Pastoral Católica em Prisões (1990-1999); membro da American Correctional Association (1991-1999); secretário geral do Movimento Nacional de Direitos Humanos – Programa Justiça e Segurança Pública (1994-1995); integrante da subcomissão do Sistema Prisional da Comissão Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo (1995); membro da Penal Reform International (1997-1999); coordenador nacional da Pastoral Carcerária (1996-1999); e vice-coordenador para a América Latina da Pastoral Carcerária (1998-1999).
Tamanha dedicação à questão carcerária fez com que Padre Chico e todos os agentes da Pastoral Carcerária fossem reconhecidos. Em 1992, o Sacerdote ganhou menção honrosa no Prêmio “Franz Holzwarth de Castro” de Direitos Humanos, concedido pela OAB/SP; e em 1998, a Pastoral recebeu o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos, outorgado pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
Em 19 de novembro de 1999, vítima de um infarto, Padre Chico faleceu em São Paulo, deixando um legado na luta pelos direitos humanos na América Latina e uma sólida base de estruturação para os trabalhos da Pastoral Carcerária que seguem até hoje.
Fotos: Arquivo, Padre Chico recebe prêmio Santo Dias de Direitos Humanos
Fontes consultadas para este texto: jornais O São Paulo, Cantareira e Folha de S.Paulo; e dissertação de mestrado “A Arquidiocese de São Paulo na gestão de d. Paulo Evaristo Arns (1970-1990), defendida por Cátia Regina Rodrigues ao programa de pós-graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, para a obtenção do título de mestre em História.

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