Dom Julio Akamine: ‘Quando passar diante de uma penitenciária, lembre-se que lá está Jesus’

 Em Igreja em Saída

2308 Dom Julio Endi AkamineNeste Jubileu da Misericórdia, somos exortados a praticar as obras de misericórdia. Proponho que reflitamos sobre a obra de misericórdia corporal “visitar os encarcerados”.
Jesus viveu pessoalmente a experiência da perseguição, da prisão, do julgamento e da condenação à pena de morte. Esse sofrimento continua em um número cada vez maior de detentos e encarcerados de nossa sociedade. Mesmo sofrendo a angústia mortal ao ponto de suar sangue e de se sentir abandonado pelo Pai, Jesus encontrou forças para prometer a um de seus companheiros de cruz: “Hoje estarás comigo no paraíso”.
São Paulo exorta: “Recordai-vos dos encarcerados, como se fôsseis companheiros de cárcere deles” (Hb 13,3). Jesus não se envergonhou de se identificar com o encarcerado.
A importância e atualidade dessa obra de misericórdia ficam evidentes quando nos damos conta da multidão que vive hoje encarcerada. O número de encarcerados no Brasil é de 607.700 (primeiro semestre de 2014). É a quarta maior população carcerária do mundo. Se a população encarcerada continuar a crescer no mesmo ritmo dos últimos anos, estima-se que em 2075 um em cada 10 brasileiros estará encarcerado. Há uma preocupação cada vez maior por segurança. Infelizmente, pouco nos preocupamos em oferecer ajuda aos detentos e, menos ainda, em humanizar as prisões.
Ao longo de dois milênios, a prática da visita aos encarcerados nunca se interrompeu. O nome “penitenciária” sugere penitência, e é justo que ele seja um lugar para tal. Mas a penitência está sempre associada ao perdão. Mesmo que o processo jurídico tenha seu curso, é preciso que o perdão nunca esteja ausente da imposição e do cumprimento da pena.
Uma sociedade em que o perdão diminui está condenada a viver altas taxas de vingança e de crueldade. A visita aos encarcerados não suprime nem a culpa, nem a punição, mas pode tocar o coração de quem sofre justa punição. A visita ajuda o cárcere a ser menos desumano e a se tornar um lugar de mudança do coração.
Muitos dizem: não posso, não consigo visitar os encarcerados (por várias razões). Muitos não podem e não conseguem visitar os cárceres. Podem, porém, usar a criatividade da misericórdia. Por exemplo, a proximidade e a ajuda aos familiares dos encarcerados são de extraordinária eficácia e revela sublime delicadeza.
Você não pode servir Cristo na pessoa encarcerada? Pode, ao menos, escrever a eles: dirigir-lhes palavras de conforto, de encorajamento na superação da pena, de sincera solidariedade. Há testemunhos belíssimos de pessoas que ajudaram encarcerados mantendo uma correspondência com eles.
Você não consegue visitar os encarcerados? Saiba que uma das necessidades nunca atendidas pelos agentes da Pastoral Carcerária é a distribuição de bíblias a tantos encarcerados que gostariam de ter a sua própria. Que tal doar uma Bíblia a um encarcerado, acompanhada de uma cartinha de encorajamento e de compromisso de oração?
Quando passar diante de uma penitenciária, do mesmo modo quando você passa diante de uma igreja, lembre-se que lá está presente Jesus, eleve o coração a Deus e interceda por todos os irmãos e irmãs privados de liberdade.
Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso.
* Texto publicado na edição de 10 de agosto do jornal O São Paulo, semanário da Arquidiocese de São Paulo, com o título “Visitar os encarcerados”, por Dom Julio Endi Akamine, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo.

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