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Pe. Almir Ramos: Crack – é possível vencer?

 em Agenda Nacional pelo Desencareramento, Notícias

Esse artigo é a parte final de uma série, com um novo texto tratando da temática das drogas publicado a cada 15 dias no site da Pastoral Carcerária. Para ler o primeiro texto, clique aqui. Para ler sobre as drogas depressoras da atividade mental, clique aqui. Para ler sobre drogas estimulantes da atividade mental, clique aqui. Para ler sobre drogas perturbadoras da atividade mental, clique aqui. E para ler sobre padrões de consumo do álcool na população brasileira, clique aqui.

Para enfrentar o problema do crack são necessárias respostas eficazes e urgentes do governo e da sociedade. Programas de intervenção integrada, incluindo ações de promoção da saúde, conscientização e informação sobre os riscos do uso do crack e disponibilização de serviços de atendimento são ações que a situação requer.

Neste texto vamos ver os efeitos sobre o sistema nervoso central e o psiquismo, bem como as consequências do uso do crack sobre o corpo. Outro aspecto importante é a percepção de que os problemas relacionados ao crack devem ser entendidos como determinados por múltiplos fatores, sejam eles biológicos, psíquicos e socioculturais.

O uso e abuso de drogas causa diversos problemas sociais, traz sofrimento para o usuário e suas famílias. No caso do crack, os problemas são imensamente maiores e com conseqüências mais devastadoras para a pessoa, sua família e a comunidade em geral.

Mas afinal, o que é o crack?

“O crack é a cocaína fumada e é obtido pelo aquecimento de cocaína misturada a água e bicarbonato de sódio. O resultado dessa mistura solidifica-se na temperatura ambiente, formando ‘pedras’ de formatos irregulares” (CARLINI-COTRIM, 1999, p. 29).

Em resumo, o crack é uma forma distinta de levar a molécula de cocaína ao cérebro. Processos químicos são utilizados para separar a cocaína da folha da coca, gerando um pó branco, o cloridrato de cocaína.

Já no século XIX, este pó branco era utilizado por usuários de cocaína, seja por meio de sua inalação, seja dissolvido em água para sua injeção nas veias. As formas que podem ser fumadas desse pó branco é o crack, a merla e o oxi.

A ação no organismo varia de pessoa para pessoa. Quando fumada, grande quantidade de moléculas de cocaína atingem o cérebro quase imediatamente, produzindo uma sensação de prazer intenso.

Porém a droga é velozmente eliminada do organismo. Isso produz uma súbita interrupção da sensação de bem-estar, e a pessoa cai imediatamente num imenso desprazer e enorme vontade de reutilizar a droga.

Isso gera um comportamento compulsivo. Com isso a pessoa vai procurar meios de usar novamente o crack. Outro aspecto é a acessibilidade, pois o crack é mais barato que a cocaína.

Merla

“A merla (mela, mel ou melado) é a cocaína apresentada sob a forma de base ou pasta, um produto ainda sem refino e muito contaminado com as substâncias utilizadas na extração” (BRASIL, 2010, p. 27).

Oxi

O oxi “[…] é um derivado da cocaína, vendido em forma de pedra, para ser fumado, assim como o crack. As duas drogas visualmente são quase idênticas.

A diferença está exatamente no que é adicionado como ingredientes junto à pasta base da cocaína. No crack são adicionados éter, acetona e bicarbonato de sódio. No oxi, até onde se sabe, são utilizados gasolina, querosene e cal virgem” (FIOCRUZ, 2011, p. 3).

Ação da droga no sistema nervoso central

A perda de controle do uso e os prejuízos decorrentes dele nas diversas esferas da vida são as consequências diretas da dependência.

O vapor aspirado da cocaína fumada na forma de crack é rapidamente absorvido pelos pulmões, alcançando o cérebro em 6 a 8 segundos. Quando injetada nas veias, a droga demora de 16 a 20 segundos e, quando cheirada, demora de 3 a 5 minutos para atingir o mesmo efeito.

Assim sendo, fumar o crack é a via mais rápida de fazer com que a droga chegue ao cérebro e, provavelmente, essa é a razão para a rápida progressão e para a dependência.

Comparando o uso de crack com outras formas de uso da cocaína, há uma proporção maior de uso intenso e de aumento da fissura entre os que usam crack.

Os efeitos do crack aparecem quase imediatamente depois de uma única dose: aceleração do coração, aumento da pressão arterial, agitação psicomotora, dilatação das pupilas, aumento da temperatura do corpo, sudorese e tremor muscular.

A ação no cérebro provoca uma sensação de euforia, aumento da autoestima, indiferença à dor e ao cansaço, sensação de estar alerta, especialmente a estímulos visuais, auditivos e ao toque. Os usuários também podem apresentar tonteiras e ideias de perseguição (síndrome paranoide).

A abstinência começa a aparecer de 5 a 10 minutos após o uso. Os principais sintomas são fadiga, desgaste físico, desânimo, tristeza, depressão intensa, inquietação, ansiedade, irritabilidade, sonhos vívidos e desagradáveis e intensa vontade de usar a droga (fissura). O auge da abstinência ocorre em 2 a 4 dias. As alterações do humor podem durar meses.

Os principais efeitos do uso do crack são decorrentes da ação local direta dos vapores em alta temperatura, como queimaduras e olhos irritados, e dos efeitos farmacológicos estimulantes da substância.

O principal órgão exposto aos produtos da queima do crack é o pulmão. Tosse com produção de escarro enegrecido, dor no peito com ou sem falta de ar, presença de sangue no escarro e piora de asma são os sintomas respiratórios agudos mais comuns. Atenção especial deve ser dada ao tratamento de pacientes com tuberculose.

O uso do crack provoca o aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, podendo ocorrer isquemias, arritmias cardíacas, problemas no músculo cardíaco e infartos agudos do coração.

As principais complicações neurológicas do uso de crack são acidente vascular cerebral (derrame cerebral), dor de cabeça, tonteiras, inflamações dos vasos cerebrais, atrofia cerebral e convulsões.

As alterações de comportamento ocasionadas pelo consumo de crack e cocaína têm sido associadas diretamente à infecção pelo HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), como gonorreia e sífilis.

Os comportamentos de risco mais frequentemente observados são o número elevado de parceiros sexuais, o uso irregular de camisinha e troca de sexo por droga ou por dinheiro para compra de droga.

O uso de crack pode diminuir temporariamente a necessidade de comer e dormir. Muitas vezes, os usuários saem em “jornadas” em que consomem a droga durante dias seguidos.

Podem ocorrer redução do apetite, náusea e dor abdominal. Frequentemente, a alimentação e o sono ficam prejudicados, ocorrendo processo de emagrecimento e esgotamento físico.

Os hábitos básicos de higiene também podem ficar comprometidos. O crack pode aumentar o desejo sexual no início, porém, com o uso continuado da droga, o interesse e a potência sexual diminuem.

O crack, quando consumido durante a gestação, chega à corrente sanguínea, aumentando o risco de complicações tanto para a mãe quanto para o bebê. Para a gestante, aumenta o risco de descolamento prematuro de placenta, aborto espontâneo e redução da oxigenação uterina.

Para o bebê, o crack pode reduzir a velocidade de crescimento fetal, o peso e o perímetro cefálico (diâmetro da cabeça) ao nascimento. Há ainda riscos de má-formação congênita, maior risco de morte súbita da infância, alterações do comportamento e atraso do desenvolvimento.

Várias situações já foram relacionadas ao uso de crack, como lesões do fígado, dos rins, dos músculos, intestinais, queimaduras em mãos, boca, nariz, rosto e lesões oculares pelo efeito tóxico e por queimadura.

A presença de problemas relacionados ao uso de outras substâncias psicoativas e a concomitância de outro(s) diagnóstico(s) psiquiátrico(s) (comorbidade) é comum entre usuários de cocaína e crack.

Os quadros psiquiátricos mais relatados são transtornos de personalidade, quadros depressivos, quadros ansiosos, instabilidade do humor, ideias paranoides ou mesmo quadros psicóticos francos, com delírios e alucinações. Sintomas agressivos estão mais relacionados ao uso de crack do que a outras vias de uso da cocaína.

O tratamento da dependência do crack reside, em sua maior parte, em abordagens psicoterápicas e psicossociais. Os resultados de pesquisas sobre o uso de medicações no tratamento da dependência do crack serão apresentados adiante, tornando claras as suas limitações, pelo menos até o momento.

Além disso, a hospitalização, quando necessária, não é suficiente no tratamento destes quadros. Deve ser feita uma avaliação abrangente, considerando a motivação do paciente para o tratamento, padrão do uso da droga, comprometimentos funcionais, problemas clínicos e psiquiátricos associados.

Informações de familiares e amigos podem ser acrescentadas. Condições médicas e psiquiátricas associadas devem ser tratadas de maneira específica.

Todo o texto aqui apresentado tem como referência o Manual do Curso de Extensão Universitária Prevenção do uso de drogas – Capacitação para Conselheiros e Lideranças Comunitárias – 5ª Edição de autoria de Sérgio Nicastri e também o Manual de Capacitação em Atenção à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade da Universidade Federal de Santa Catarina.

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